Nas recentes eleições no land da Saxónia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha (AfD) alcançou 43,8% dos votos, mais do que duplicando os resultados de 2021, enquanto os democratas-cristãos que governavam há mais de 20 anos viram a sua votação reduzida para cerca de 17,2%. A AfD ficou à frente em todos os grupos de eleitores e etários, incluindo os mais jovens, num contexto de participação que aumentou 17,5 pontos percentuais, passando de 60,3% para 77,8%.
O artigo refere o ensaio de Wolfgang Münchau, jornalista especializado em economia europeia e diretor do Eurointelligence, intitulado "Kaput: o fim do milagre alemão". Münchau sustenta que o modelo económico alemão, construído no pós-guerra e assente em excedentes externos, energia barata, disciplina orçamental rígida e incapacidade de acompanhar a transformação tecnológica global, se esgotou, encontrando-se na base da crise estrutural que afeta a União Europeia.
A Alemanha não foi apenas a economia mais forte da União Europeia, mas também o referencial normativo da governação económica europeia durante décadas. O artigo argumenta que a Europa adotou o modelo alemão sem as condições externas que o tornavam viável, contribuindo para desequilíbrios persistentes entre centro e periferia. A obsessão com o equilíbrio orçamental levou à erosão de infraestruturas físicas, digitais e energéticas, e a Europa deixou-se ultrapassar tecnologicamente pelos Estados Unidos e pela China, conforme documentado nos relatórios de Letta e Draghi de 2024.
O artigo conclui que a ascensão da AfD não pode ser interpretada apenas como um fenómeno ideológico, mas como a expressão social de uma crise económica e política profunda cujas responsabilidades estão associadas aos partidos e forças políticas que conduziram a Europa nas últimas décadas, revelando crescente incapacidade de responder às transformações estruturais. O problema europeu, segundo o artigo, não é apenas não olhar o mundo como ele é, mas sobretudo continuar a olhar o mundo como ele foi.




