Sandrina Martins, lusodescendente e diretora do Carreau du Temple em Paris, esteve em Lisboa no âmbito do Festival TODOS para partilhar a experiência de transformação de um antigo mercado abandonado da capital francesa. Em 2015, Sandrina assumiu a missão de dar nova vida a este espaço histórico, que funcionava como mercado de roupa desde o final do século XIX e fechou definitivamente em 1984 ou 1985, após o declínio causado pela fast fashion nos anos 80. Hoje, o Carreau du Temple é um espaço que combina programação cultural, atividades desportivas e de bem-estar com mais de 90 aulas semanais, e acolhe grandes eventos e feiras de arte, gerando cerca de 80% das suas receitas próprias através do aluguer do espaço.
A transformação do Carreau du Temple nasceu da mobilização cidadã. Os vizinhos lutaram contra a demolição do edifício, único edifício vivo na lista de monumentos históricos do bairro. Em 2001, o então presidente da Câmara de Paris, Bertrand Delanoë, decidiu recuperá-lo e, dois anos depois, foram analisadas 133 propostas da população sobre o futuro do espaço. As obras começaram em 2004 e duraram quase uma década, devido à descoberta de um cemitério antigo que exigiu trabalho arqueológico. O novo Carreau du Temple abriu em 2014.
A Junta de Freguesia de Arroios tem tentado reativar o Mercado do Forno do Tijolo, inaugurado em 1949, que perdeu movimento ao longo dos anos devido à concorrência dos supermercados e à alteração dos hábitos de consumo. Este ano, a junta removeu carros, criou zonas de lazer, sombras, cinema ao ar livre e realizou debates com fregueses. Sandrina Martins acredita que o Forno do Tijolo tem potencial para se inspirar no modelo parisiense, mas alerta que cada espaço tem a sua própria história e condicionantes, e que a diversidade de usos já existente deve ser preservada e não apenas transformada num espaço cultural.




