O ministro da Administração Interna, Luís Neves, foi ouvido no Parlamento durante quase cinco horas para esclarecer várias polémicas que marcaram as últimas semanas. Durante a audição, o ministro assumiu falhas em alguns procedimentos, mas rejeitou que qualquer decisão tivesse sido tomada para obter benefício pessoal ou lesar o Estado. "Estou absolutamente confortável com tudo aquilo que fiz", afirmou, garantindo que sempre agiu com critérios de legalidade e na prossecução do interesse público.
Relativamente às declarações de rendimentos, Luís Neves reconheceu que não declarou atempadamente a empresa da mulher e o carro da família, assumindo o erro. Disse que ele e a mulher começaram a "trabalhar desalmadamente" e nunca se lembraram de atualizar a declaração, e que nunca foi alertado pelos serviços para a falha. No entanto, não explicou como foi possível que um responsável de topo da PJ permanecesse anos sem declarar todos os elementos exigidos sem que os mecanismos de controlo detetassem a situação.
Sobre o atrelado apreendido pela Polícia Judiciária, o ministro explicou que a PJ não tinha capacidade para armazenar todo o material apreendido e que a decisão de aceitar uma solução para o atrelado foi tomada nesse contexto. Contudo, assumiu que deveria ter existido um registo formal da saída, o qual não existiu. Quanto às obras na sua casa em Odemira, Neves admitiu que "nunca devia ter permitido" que o proprietário da Construbarcelos, empresa com contratos com a polícia, realizasse trabalhos na residência. Negou qualquer relação de favorecimento, lembrando que a empresa representava apenas cerca de 4% dos contratos da PJ no período em causa.
As explicações do ministro ficaram ainda incompletas noutras questões. Sobre os materiais de construção utilizados em Odemira, as chamadas "sulipas", o deputy Rui Rocha questionou se terão vindo da Infraestruturas de Portugal. Neves respondeu que o material lhe foi disponibilizado por um trabalhador, mas não esclareceu quem era esse trabalhador nem se tinha autorização. Quanto à utilização de uma viatura apreendida associada ao traficante "Xuxas", o ministro enquadrou-a na gestão operacional de veículos apreendidos pela PJ, mas não explicou quem autorizou concretamente a cedência da viatura. Sobre os empréstimos de cerca de 225 mil euros para as obras, Neves garantiu que tem apenas uma conta bancária "absolutamente transparente", mas não desenvolveu a cronologia entre empréstimos, despesas e obras.




