A China está a construir uma infraestrutura para receber, armazenar, negociar e liquidar ouro, com Hong Kong como centro desta estratégia. Em junho de 2025, a Shanghai Gold Exchange abriu em Hong Kong o seu primeiro cofre de entrega física de ouro fora da China continental, operado pelo Bank of China. A cidade lançou também um sistema central de compensação de ouro e pretende aumentar a sua capacidade de armazenamento para mais de 2.000 toneladas até 2030, criando uma ligação física entre os mercados de Hong Kong e Xangai.
A Rússia tornou-se um dos principais fornecedores de ouro para este circuito. Segundo o Financial Times, Hong Kong importou quase 100 toneladas de ouro russo nos primeiros sete meses de 2026, quase três vezes mais do que no ano anterior. Desde 2022, entidades de Hong Kong terão comprado cerca de 35 mil milhões de dólares de ouro russo, que acaba por chegar à China continental. A explicação está nas sanções ocidentais, que levaram os produtores russos a procurar compradores na Ásia através de Hong Kong, que não aplica as mesmas restrições.
A China está igualmente a desenvolver uma rede global de cofres, com possíveis localizações em países e centros ligados à sua estratégia internacional, incluindo países dos BRICS, Médio Oriente, Sudeste Asiático e África. A estratégia é particularmente interessante porque Pequim não precisa de comprar o ouro dos outros países — um banco central pode continuar proprietário das suas barras e simplesmente guardá-las em Hong Kong, ficando integrado na infraestrutura financeira chinesa. A China está também a reforçar as suas próprias reservas, com 21 meses consecutivos de compras, elevando as reservas oficiais para cerca de 2.366 toneladas.
O objetivo final é fortalecer o papel internacional do yuan. A China está a desenvolver uma rede que permita negociar e custodiar ouro fora do circuito financeiro dominado pelo dólar. Se um país vender petróleo à China, receber yuan e puder converter esse yuan em ouro através de uma rede de cofres próxima, passa a ter uma alternativa parcial ao circuito dólar-Londres-Nova Iorque. Contudo, Londres e Nova Iorque continuam a movimentar cerca de cinco vezes mais ouro do que Hong Kong, pelo que a China está a construir uma alternativa, não a substituir os centros ocidentais.




