Portugal é o país da União Europeia em que os anúncios de emprego online para especialistas em tecnologias de informação e comunicação (TIC) mais pesam no total das ofertas. De acordo com dados do Eurostat relativos aos últimos 12 meses até junho, 13,2% dos anúncios de emprego publicados online em Portugal destinavam-se a este setor, o valor mais elevado desde o quarto trimestre de 2022 e mais do dobro da média da UE, que se situa nos 6,2%. Portugal lidera assim o ranking europeu pela primeira vez desde os dois primeiros trimestres de 2021, no pico da pandemia, quando as TIC chegaram a representar 20% dos anúncios. O número de anúncios para especialistas em TIC está a crescer de forma sistemática desde o segundo trimestre de 2025, com uma subida de 4,9% face ao ano anterior, e Portugal é o único país com aumentos homólogas constantes ao longo dos últimos quatro trimestres.
A Área Metropolitana de Lisboa destaca-se igualmente nos dados europeus, ocupando a terceira maior proporção entre as 242 regiões da UE, com 17,6% dos anúncios a procurar estes profissionais. À frente estão apenas Ceuta e a Comunidad de Madrid. A região Norte, com 12,7%, tem aproximadamente o dobro da média europeia. De acordo com outros dados do Eurostat, Portugal foi também o país que mais viu crescer o emprego de pessoas com formação em TIC de 2022 a 2025, com um aumento de 59% em três anos, acima da Bulgária, Luxemburgo e Áustria. Os serviços de TIC são hoje responsáveis por quatro vezes mais exportações do que há 10 anos, superando os 5 mil milhões de euros.
Especialistas como Ana Castro, COO do Grupo Babel, e Cláudia Mendes, líder da Women in Tech Portugal, apontam vários fatores para esta dinâmica. Portugal beneficia de margem para crescer face a outros países, uma vez que a adoção de tecnologias avançadas como a cloud e a inteligência artificial está ainda abaixo da média europeia. O país tem reforçado infraestruturas digitais e atraído projetos tecnológicos, centros de competências e operações que trabalham para mercados internacionais. Empresas israelitas, do Líbano e norte-americanas estão a fixar-se em Portugal e a criar hubs tecnológicos, tornando o país num polo atrativo para profissionais de várias nacionalidades. A procura é sobretudo por talento altamente qualificado e especializado, com mais perfis seniores do que juniores.
Contrariamente ao que se perspetivava sobre a inteligência artificial destruir empregos, os dados sugerem que a tendência está a ser contrária. Cláudia Mendes acredita que há margem para a procura continuar a crescer, uma vez que a IA, a cibersegurança, a cloud, os dados e a automação ainda estão numa fase de crescimento. Um estudo da Universidade de Stanford sustenta que não há sinais de destruição generalizada de emprego associada à IA. A sustentabilidade do setor dependerá de formar e requalificar mais pessoas, reter profissionais experientes e continuar a atrair talento internacional para as áreas em que a oferta nacional permanece insuficiente.




