A transição energética e a necessidade de descarbonizar os transportes pressionaram a Europa a olhar para a mobilidade coletiva não apenas numa perspetiva comercial, mas também como ferramenta de políticas públicas promotora de coesão socioeconómica e ambiental. Neste contexto, surgiram os passes únicos que podem ser utilizados em diferentes tipos de transporte à escala nacional e regional, como parte da transformação no acesso universal ao transporte coletivo.
Na centralidade destas políticas transformadoras encontram-se dois exemplos pioneiros: o passe anual austríaco Klimaticket e o passe mensal alemão Deutschlandticket. O Klimaticket, lançado em outubro de 2021 pelo operador público ÖBB no âmbito do Plano de Mobilidade 2030 da Áustria, custa 1095 euros no lançamento e passa para 1400 euros em 2026, permitindo viajar durante um ano em todos os serviços ferroviários regulares, transportes urbanos e tendo alcance regional e nacional. Um inquérito de 2026 pela entidade pública VCÖ revelou que 58% dos inquiridos passou a utilizar o comboio em vez do carro como principal motivo a compra de um Klimaticket.
A Alemanha seguiu a Áustria dois anos depois, implementando o Deutschlandticket após o sucesso experimental do bilhete de 9 euros no verão de 2022. Este passe mensal de 49 euros (que passou para 58 euros em 2025 e 63 euros em 2026) permite viajar nos comboios regionais da Deutsche Bahn, serviços S-Bahn e transporte urbano a nível nacional. Um estudo de 2026 do Centro Alemão de Pesquisa em Transporte Ferroviário mostrou que utilizadores poupam anualmente três mil milhões de euros com a utilização do passe, verificando-se uma ligeira diminuição do uso do automóvel.
Estes exemplos pioneiros catalisaram a implementação de passes semelhantes noutros países europeus. A Hungria anunciou em 2023 um passe mensal de 49 euros, Espanha lançou em 2026 um passe de 60 euros, e a França tentou uma experiência piloto em 2024 com o Pass Rail para jovens. No entanto, estes passes enfrentam desafios significativos, nomeadamente o financiamento público estável e de longo prazo, com o governo federal alemão e os estados a garantirem até 2030 um total de 3 mil milhões de euros por ano para compensar as empresas de transporte. Além disso, são necessários investimentos nas infraestruturas para responder ao aumento da procura, sob risco de sobrelotação e degradação do serviço.




