Francisco Soares Machado, sócio no departamento de Financeiro e Governance da Sérvulo desde 2025, caracteriza o momento atual do setor financeiro português como muito positivo. Em entrevista à Advocatus, o antigo assessor do Vice-Presidente do Banco Europeu de Investimento e adjunto do Ministro das Finanças refere que a banca nacional apresenta hoje níveis de capital e liquidez elevados, lucros e rentabilidade históricos, crédito malparado reduzido e baixa alavancagem, situando-se em vários indicadores acima da média da União Europeia. O desempenho dos bancos resulta de uma combinação de fatores conjunturais, como a estabilidade política, a responsabilidade orçamental e o crescimento económico impulsionado pelo turismo, imobiliário e tecnologia, e de fatores estruturais, como o mérito das equipas de gestão na desalavancagem, transformação digital e reforço da qualidade dos ativos.
Quanto aos desafios estratégicos, Machado identifica a transformação digital, o combate à fraude nos pagamentos, a integração da sustentabilidade nos modelos de gestão de risco e a regulação europeia como principais áreas de atenção. O advogado vê positivamente as iniciativas da Comissão Europeia e do BCE para fomentar a competitividade do setor e simplificar a regulação, mas defende que seria importante haver consenso europeu para concluir o pilar em falta da União Bancária. A regulação europeia está a transformar o modelo de negócio das instituições financeiras, que dedicam tanto tempo ao compliance quanto ao próprio negócio, o que, segundo Machado, traz benefícios para as instituições e externalidades positivas para a sociedade.
No que respeita a oportunidades de investimento, Machado destaca que as elevadas valorizações dos bancos e as barreiras à atribuição de novas licenças criam oportunidades relevantes para investimento de longo prazo. Exemplos recentes incluem a venda pela Fosun de uma participação no BCP, a venda do Novo Banco ao BPCE e acordos de venda de outros bancos. Na gestão de ativos alternativos, o mercado tem crescido exponencialmente, impulsionado por um regime fiscal atrativo e menores barreiras regulatórias, com diversas operações de consolidação nos últimos meses. No entanto, Machado alerta que Portugal deve olhar para o mercado único europeu e internacionalizar-se, em vez de se limitar ao mercado doméstico.
Relativamente ao futuro, Machado acredita que a atividade bancária continuará a ser o cerne do sistema financeiro português, mas antecipa grande potencial de crescimento nos fundos de investimento, especialmente nos fundos de dívida, que podem complementar ou substituir a banca para certos projetos com requisitos regulatórios mais leves. O financiamento de projetos de transição energética e infraestruturas, bem como o financiamento estruturado em geral, são outras áreas com perspetivas de crescimento robusto. A transformação digital e as alterações regulatórias no mercado de capitais deverão também permitir uma maior afirmação de entidades como empresas de investimento e FinTech.




