Quando se fala dos povos que habitaram o atual território português antes da chegada de Roma, os Lusitanos tendem a ocupar quase todo o imaginário coletivo. No entanto, no Sul da Península Ibérica, incluindo áreas do atual Algarve e Alentejo, as fontes antigas referem populações através de nomes como Kynetes, Kynesioi, Konioi, Kouneoi e Conii, geralmente associados aos Cónios ou Cinetes. Uma passagem de Apiano distingue claramente os Lusitanos dos Cunei, descrevendo como um grupo de Lusitanos comandado por Cauceno invadiu o território dos Cunei e tomou a sua principal cidade, Conistorgis. A localização desta cidade continua desconhecida, tendo sido apresentadas várias propostas, incluindo uma identificação com Medellín, em Espanha, mas nenhuma reuniu consenso.
No Baixo Alentejo e no Algarve foram descobertas numerosas estelas com inscrições na chamada escrita do Sudoeste, que o Museu Nacional de Arqueologia descreveu como a primeira manifestação bem caracterizada de escrita na Península Ibérica e uma das mais antigas da Europa. A literatura académica contabiliza cerca de uma centena de inscrições da Idade do Ferro, provavelmente maioritariamente associadas a monumentos funerários. Mais de dois séculos depois dos primeiros estudos de Frei Manuel do Cenáculo, a escrita continua sem estar completamente decifrada. Muitos signos e alguns dos seus valores fonéticos são reconhecidos, mas subsistem divergências sobre outros caracteres, a separação das palavras e, sobretudo, a língua representada nas inscrições.
A associação entre a escrita do Sudoeste e os Cónios consolidou-se ao longo do século XX, com a proximidade que se estabelecia entre este povo, o mundo tartéssico e as influências fenícias. Contudo, num estudo publicado em 2025 na revista científica Palaeohispanica, o arqueólogo Amílcar Guerra questiona diretamente esta ligação. O investigador chama a atenção para as diferenças entre a cultura material do território onde aparecem as inscrições e a das zonas costeiras habitualmente relacionadas com os Cónios. Com base nos contextos funerários, nos povoados, na cultura material e na toponímia, Amílcar Guerra considera mais consistente relacionar o território das estelas com comunidades identificadas nas fontes como Célticos.
As estimativas indicam que perto de 90% dos exemplares das estelas foram descobertos em Portugal, concentrando-se sobretudo no Sul do Alentejo e no interior algarvio. Um desses achados ocorreu perto da Cortelha, no conselho de Loulé, onde uma pedra foi identificada como um fragmento de estela com escrita do Sudoeste. Mais de 2.500 anos depois, os símbolos gravados nas pedras continuam a ser estudados. A história dos Cónios permanece marcada pelas dúvidas, e saber se as estelas pertenciam especificamente aos Cónios, aos Célticos ou a outras comunidades do Sudoeste continua a ser uma das questões em aberto da arqueologia portuguesa.




