A indústria têxtil portuguesa está a transformar-se através de práticas sustentáveis e inovadoras, incluindo algodão regenerativo cultivado para recuperar solos, tingimento com microrganismos e processos industriais que consomem menos água. Esta mudança surge num setor mundial sob pressão para reduzir emissões, desperdício e consumo de produtos químicos, com a moda a representar entre 2% e 8% das emissões globais de gases com efeito de estufa. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenado por Céline Abecassis-Moedas, Laure Leglise e Mariana Pereira Silva, analisou sete casos portugueses de inovação sustentável, identificando exemplos que vão do algodão regenerativo ao poliéster reciclado, fibras de ácido polilático, liocel e acabamentos que reduzem o consumo de água.
O estudo revela que, muitas vezes, não são as marcas que puxam pela inovação, mas os próprios produtores portugueses, que conhecem as máquinas, dominam os processos e assumem parte importante do risco de experimentar novas soluções. Os fabricantes estão a passar de simples produtores para parceiros estratégicos que desenvolvem materiais, asseguram rastreabilidade e participam em processos de reciclagem. A colaboração entre intervenientes da cadeia de valor ocorre principalmente através da partilha de conhecimentos, intercâmbio de informações e integração de recursos complementares, com acordos baseados na confiança a prevalecerem em quatro dos sete casos analisados.
Portugal parte com vantagens competitivas significativas, incluindo mão de obra qualificada, capacidade tecnológica, forte investimento em sustentabilidade e concentração geográfica das empresas no Norte do país, que permite testar e transformar ideias com maior rapidez. Entre 2010 e 2021, o número de empresas do setor que investiram em investigação e desenvolvimento aumentou 153%, de 64 para 162, com um investimento empresarial em I&D de cerca de 43 milhões de euros. Em 2024, o setor representava 1,7% do PIB português, 7,8% das exportações e 17,3% do emprego da indústria transformadora, com quase 12 mil empresas a dar emprego a mais de 118 mil pessoas.
No entanto, a indústria enfrenta desafios consideráveis, incluindo custos elevados de inovação, dificuldades de financiamento, falta de profissionais especializados e o que os fornecedores descrevem como um tsunami regulatório europeu. As pequenas e médias empresas podem não dispor dos recursos financeiros necessários para investimentos antecipados, e os custos das certificações de sustentabilidade podem ser proibitivos. Ainda assim, a conclusão do estudo aponta para uma oportunidade rara: deixar de competir apenas pelo preço e competir pelo conhecimento, com a partilha de conhecimentos e a integração de recursos complementares a serem identificados como fatores-chave para o sucesso dos processos de inovação.




