A jornalista, escritora e histórica activista norte-americana Gloria Steinem faleceu serenamente aos 92 anos no dia 2 de Setembro na sua residência na cidade de Nova Iorque, informou a Fundação da família. Encontrava-se rodeada por familiares e colaboradores chegados. O desaparecimento desta figura que personificou a segunda vaga do feminismo encerra um ciclo de mais de cinco décadas de acção em prol da igualdade de género, dos direitos reprodutivos e da participação política das mulheres. A causa específica do falecimento não foi tornada pública.
Nascida a 25 de Março de 1934 em Toledo, Ohio, Steinem concluiu os estudos no Smith College em 1956 e passou dois anos na Índia a colaborar com a imprensa local antes de se mudar para Nova Iorque. O salto para a escrutínio nacional aconteceu em 1963, quando, ao serviço da revista Show, se infiltrou como empregada disfarçada de «coelhinha» no Playboy Club de Manhattan. Documentou as jornadas laborais abusivas e a submissão a inspecções físicas humilhantes, desmistificando o glamour da indústria erótica corporativa. Em 1972, fundou a pioneira revista Ms., a primeira publicação gerida e editada integralmente por mulheres, cujo número de estreia incluiu um manifesto colectivo de figuras que subscreveram publicamente terem realizado interrupções voluntárias da gravidez quando o procedimento permanecia ilegal.
Steinem integrou em 1971 o núcleo fundador do National Women's Political Caucus ao lado de Bella Abzug, Shirley Chisholm e Betty Friedan, com o objectivo de formar e financiar mulheres para disputarem mandatos públicos. Criou ainda a Ms. Foundation for Women, a Coalition of Labor Union Women e o Women's Media Center para monitorizar a sub-representação feminina nos média. O seu trabalho contribuiu para a alteração dos regulamentos bancários federais que exigiam a assinatura de um tutor masculino para mulheres abrirem contas ou solicitarem cartões de crédito. Em Novembro de 2013, o Presidente Barack Obama atribuiu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta condecoração civil dos Estados Unidos, e em 2021 Espanha galardoou-a com o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades.
Steinem foi uma das primeiras vozes a defender que a luta das mulheres brancas de classe média não podia ser dissociada da opressão vivida pelas minorias étnicas, tendo confessado numa entrevista à New Yorker que «as mulheres de cor basicamente inventaram o feminismo». As reacções internacionais multiplicaram-se, com Hillary Clinton a saudar uma das «arquitectas de toda a estrutura da igualdade das mulheres». A sua autobiografia de 2015, My Life on the Road, serviu de base ao filme The Glorias, estreado em 2020 sob realização de Julie Taymor, e uma nova obra de memórias, An Unexpected Life, tinha lançamento calendarizado para este mês de Setembro.




