O rendimento da obrigação do Tesouro japonês a 10 anos atingiu os 3% na segunda-feira, 1 de setembro, em Tóquio, pela primeira vez desde setembro de 1996. No mesmo dia, a taxa a cinco anos alcançou um máximo histórico de 2,265% e a taxa a dois anos subiu para 1,795%, o nível mais elevado em 31 anos. Na quarta-feira seguinte, o rendimento mantinha-se em torno de 3,02%. O mercado atribui uma probabilidade de 80% a uma subida das taxas de juro pelo Banco do Japão na reunião de 17 e 18 de setembro, para 1,25%.
Durante três décadas, o Japão foi o país onde o mundo ia buscar dinheiro quase de graça, com taxas de juro próximas de zero ou mesmo negativas. Esse mecanismo, conhecido como carry trade, permitia a fundos de investimento pedir ienes emprestados em Tóquio, convertê-los em dólares e aplicá-los em obrigações norte-americanas, ações tecnológicas ou criptomoedas, lucrando com o diferencial das taxas. Agora, esse combustível silencioso dos mercados globais está a desaparecer, num contexto de crise no Médio Oriente que alimenta receios de inflação global.
O Japão é o país mais endividado do mundo desenvolvido, com uma dívida pública equivalente a 204% do PIB. O orçamento para 2026 ascende a 122,3 biliões de ienes, dos quais 31,3 biliões serão destinados ao serviço da dívida, o que significa que cerca de um em cada quatro ienes arrecadados será usado para pagar a própria dívida. O Ministério das Finanças japonês já considera elevar a premissa de taxa de juro para 3,8% no orçamento de 2027. Paradoxalmente, apesar da subida das taxas, o iene continua fraco, tendo o par dólar/iene atingido 159,7 em 1 de setembro, numa desvalorização de 7,5% desde o início do ano.
O Japão é também o maior detentor estrangeiro de dívida norte-americana, com cerca de 1,2 biliões de dólares. No primeiro trimestre de 2026, os investidores japoneses venderam 29,6 mil milhões de dólares em obrigações norte-americanas, a maior saída trimestral desde 2022, numa altura em que investir no mercado doméstico já pode compensar sem o risco cambial. O Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, pediu às autoridades japonesas que apresentem um caminho claro para a sustentabilidade das finanças públicas, numa mudança de ênfase da intervenção cambial para medidas de política monetária e fiscal.




