Na noite de sábado, 29 de agosto, Mia Couto e Míriam Leitão encerraram a programação nacional do 4º Fliparacatu, o Festival Literário Internacional de Paracatu, realizado em Minas Gerais, Brasil, entre os dias 26 e 30 de agosto. O evento celebrou os 70 anos da publicação de "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, e trouxe como patronos da edição o próprio Guimarães Rosa e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento. A conversa, mediada pelo jornalista Jamil Chade, que reside em Genebra, abordou a relação entre território e identidade, a linguagem como forma de compreender o outro e a travessia como experiência transformadora. A ministra Cármen Lúcia, inicialmente prevista para participar, não pôde comparecer devido a um imprevisto.
Míriam Leitão compartilhou sua experiência concreta de percorrer lugares como Serra das Araras, Ribeirão da Areia e o Parque Nacional Grande Sertão: Veredas para produzir uma inúmer report para o canal GloboNews, buscando compreender o universo que Guimarães Rosa transformou em literatura. Mia Couto, leitor da obra do escritor mineiro, afirmou que "Grande Sertão: Veredas" contém uma linguagem que ultrapassa aquilo que é simplesmente dito, sendo necessário aprender a escutar o que a palavra não expressa diretamente.
Durante o debate, Jamil Chade lembrou a trajetória de Guimarães Rosa como diplomata na Alemanha durante os anos que antecederam e atravessaram a Segunda Guerra Mundial, quando o escritor, ao lado da esposa Aracy de Carvalho, ajudou judeus perseguidos pelo regime nazista a obterem vistos para deixar o país. A partir dessa dimensão humana de Rosa, os participantes refletiram sobre o que a obra ainda ensina, com Míriam destacando que "ele ouviu o sertão" e que Guimarães Rosa transformou a linguagem do sertanejo em matéria de invenção, pensamento e poesia, não a tratando como algo menor ou periférico.
O festival, realizado pela Associação Cultura Sempre um Papo sob a coordenação de Afonso Borges, chegou à sua quarta edição consolidado como um dos principais festivais literários do Brasil. Desde sua estreia em 2023, o Fliparacatu é visto como um polo de intercâmbio cultural e pensamento crítico no interior mineiro. A programação gratuita contou com acessibilidade em Libras e transmissão pelo YouTube, incluindo debates, o Prêmio de Redação e Desenho para estudantes, e uma exposição ao ar livre com obras do pintor Alberto da Veiga Guignard. Ao final do evento, o compositor Celso Adolfo subiu ao palco com o violão para apresentar canções inspiradas no universo de Guimarães Rosa, com Jamil Chade acompanhando à flauta transversal.




