Pedro Santa Clara, diretor de quatro escolas e uma empresa, responde publicamente às suspeitas sobre como consegue escrever cerca de 150 ensaios por ano em duas línguas, todos documentados e extensos. A resposta é direta: utiliza inteligência artificial, especificamente o Claude, como colaborador permanente. O autor reconhece que a suspeita está parcialmente certa e decidiu revelar todo o seu processo, incluindo falhas e limites, porque defende que em breve todos trabalharão desta forma.
O sistema começa com um contrato permanente — instruções que a máquina lê antes de cada conversa — que evoluiu ao longo de um ano. As regras mais importantes proíbem a máquina de validar premissas antes de as examinar, exigem que contradiga o autor quando estiver errado e obrigam à explicitação do nível de confiança. Santa Clara explica que estes sistemas são treinados para agradar ao utilizador, o que os torna "veneno para pensar", pelo que a primeira coisa que escreveu foi a trela da própria máquina. A IA foi depois treinada com todo o seu corpus de escrita — ensaios publicados, tiques verbais, posições — para que redija dentro da sua voz, não para que a imite.
O processo de um ensaio típico começa com uma ideia e um parágrafo de instruções, seguido de investigação rápida em fontes primárias. A IA redige um primeiro rascunho, que Santa Clara edita de próprio punho, cortando e reordenando. Segue-se a revisão adversarial: a máquina é ordenada a atacar o texto como um leitor hostil, verificando cada facto e identificando falhas. Um ensaio passa tipicamente por quatro a cinco iterações completas, e por vezes é descartado na gaveta quando não satisfaz os padrões do autor. Houve falhas dos dois lados — incluindo uma citação inventada por completo — mas a máquina também apanhou erros do próprio Santa Clara, como datas erradas do seu currículo.
Sobre a autoria, Santa Clara recusa tanto a ideia de que a máquina é apenas uma ferramenta como a de que a escrita deixou de ser sua. Argumenta que, historicamente, Rubens assinava telas da oficina, economistas publicavam com assistentes de investigação e estadistas publicavam memórias escritas por ghostwriters. A autoria atribui-se à conceção, não à mão — e a conceção, as teses, as escolhas e a responsabilidade são suas. A fórmula honesta é que o ensaio é produto de um sistema com duas componentes: uma com ideias e arrisco, outra com bibliotecas e paciência infinita. A assinatura identifica a componente que responde pelo todo. A IA não baixou os seus padrões — tornou-os viáveis.




