O autor deste artigo de opinião, publicado no Jornal do Algarve, estabelece uma comparação entre a linguagem usada no futebol e na política. Numa primeira parte, refere ter visto numa manhã de 17 de Agosto um noticiário da CNN com a mensagem "Irão ameaça os Estados Unidos com surpresas estratégicas e postura ofensiva", notando que estas expressões poderiam igualmente aplicar-se a comentários sobre futebol, como declarações de Marco Silva sobre um jogo do Casa Pia. O autor argumenta que o discurso de futebolistas, treinadores e comentadores é semelhante ao dos políticos, ambos em circuito fechado e com grande vacuidade de ideias.
Relativamente à situação geopolítica, o autor menciona as declarações iranianas sobre o conflito com os Estados Unidos, considerando que os políticos iranianos acompanham o desporto rei para difundir as suas ideias. O autor expressa scepticismo sobre a utilidade das palavras de ambos os grupos.
Numa segunda parte, o autor aborda a questão da reciclagem do plástico em Portugal, criticando aqueles que exigem mais reciclagem sem utilizarem eles próprios os contentores de recolha. O autor descreve a dificuldade prática de depositar embalagens nos contentores, que frequentemente transbordam, questionando como seria possível aumentar a deposição de plástico sem que grande parte termine no chão ou no lixo indiferenciado.
O autor manifesta ainda o seu ceticismo quanto às máquinas de recolha de plástico nos supermercados e a taxa adicional de dez cêntimos que os consumidores pagam, suspeitando que estas medidas possam ser formas de justificação para cobranças adicionais.

E não digo eu, que o mais parecido ao futebol é sempre a política? Não que o orçamento seja discutido no relvado, ou que o VAR esteja atento às comissões parlamentares, isto se quisermos ver a questão sob o nosso prisma doméstico e amarradinho, como os tugas (como eu e você, caro amigo) sabem fazer. É o que se me afigura, quando passa pela frente dos olhos um rodapé da CNN, num noticiário matinal no dia dezassete de Agosto: “Irão ameaça os Estados Unidos com surpresas estratégicas e postura ofensiva”. Aliás, só percebi o alcance à segunda, porque apanhando o comboio das letras em andamento, pensava serem declarações de Marco Silva, sobre o jogo que a sua equipa iria disputar com o Casa Pia. “Surpresas estratégicas e postura ofensiva”, costumam emparelhar com futebol e, não sendo a primeira vez que as vejo descontextualizadas (ou não), admiro o seu uso relacionado, no caso, com uma guerra de baixa intensidade, como agora se diz.
O discurso dos futebolistas, treinadores e comentadores, sabem quase – sempre ao mesmo que o dos políticos e já agora, de muitos que escrevem sobre questões da política. Muito arrumados, mas sempre iguais, em circuito fechado. Também se sabe que, só a enorme vacuidade das ideias de uns e outros, possibilita que as suas palavras possam ter mil interpretações – ou nenhumas, se quisermos ser desmancha prazeres. E no Irão, vão os políticos acompanhando o desporto rei, para difundirem as suas ideias um bocado dadas á maldade? Claro que sim, lá como cá, eles sabem a força que lhes hão-de dar, principalmente quando a coisa dá para a maldade. A prova está nas declarações que fizeram em relação ao conflito com os Estados Unidos.
No discorrer diário de desgraças a que temos direito, apercebo-me que alguém ligado à reciclagem ou ao desperdício zero, com a voz e os modos doutorais que os caracterizam, vem a terreiro afirmar que estamos muito atrasados na reciclagem do plástico. Sobre o nosso atraso não direi uma palavra, mas só espero que a ideia não seja uma forma de justificar as máquinas de recolha dos supermercados, dos dez cêntimos que pagamos a mais, etc., palavra de um inveterado cínico. Seja como for, a questão é que a reciclagem do plástico não se esgota nas garrafas e acontecendo o que acontece noite sim noite não, em que não consigo meter mais uma embalagem de iogurte no contentor, sem empurrar plástico sem fim, só para arranjar um pequeno espaço para a manobra, não sei como será possível aumentar a deposição do plástico sem que a maior parte não acabe no meio do chão (o mais provável), ou no lixo indiferenciado (uma parte substancial). Ou seja, quem exige que reciclemos mais plástico, não o deita embalagens no contentor, porque saberia que volta e meia o contentor rebenta pelas costuras. Porque se o fizesse, talvez não se excitasse tanto em nos fazer exigências.