A programação de encerramento da sexta-feira, 28 de agosto, do 4.º Fliparacatu reuniu o escritor moçambicano Mia Couto e a autora paulistana Noemi Jaffe em um diálogo moderado pelo escritor Jeferson Tenório. O encontro, que fez parte da quarta edição do festival literário realizado em Paracatu, abordou temas como a obra de Guimarães Rosa, o manejo artesanal da linguagem, a beleza da passagem do tempo e a partilha de trabalhos inéditos. Jeferson Tenório abriu o diálogo citando a presença de Guimarães Rosa no festival e a frase de um estudante vencedor do Prêmio de Redação e Desenho: "eu sou literatura".
Mia Couto iniciou sua reflexão sobre as origens do ato de narrar, alertando para o risco de isolar o fazer literário da experiência cotidiana. O autor lembrou que se tornou escritor não apenas pelo gosto de ler livros, mas por prestar atenção às histórias contadas por sua mãe em Moçambique, que traziam para o presente parentes que ele não pôde conhecer. Mia revelou que o escritor angolano Luandino Vieira lhe enviou uma cópia de "A terceira margem do rio", e nenhum outro texto o abalou de forma tão profunda, estando diante das possibilidades de uma linguagem situada na fronteira exata com a oralidade.
Noemi Jaffe, autora do livro "Te dou minha palavra", destacou o respeito e a dimensão quase sagrada que Guimarães Rosa dedicava a cada vocábulo, ressaltarando que a entrega da palavra ao outro carrega uma doação da própria alma. A autora também recuperou a distinção entre o tempo cronológico e a expressão "a hora e a vez", definindo a "vez" como o momento decisivo e transformador no qual o indivíduo precisa se lançar por inteiro. Ambos os autores abordaram as aproximações poéticas entre a infância e a velhice, com Mia relacionando a maturidade ao aprendizado vindo do cuidado com pássaros feridos, principalmente corujas.
Um dos momentos mais marcantes do encontro foi a partilha de leituras. Mia Couto leu, pela primeira vez em público, o primeiro capítulo de seu romance inéditas, com lançamento previsto para o próximo ano, sobre o drama do tráfico e da exploração de jovens em minas abandonadas na África do Sul. Em seguida, Noemi Jaffe leu as páginas iniciais de sua obra "Te Dou Minha Palavra", narrando suas percepções diante do espelho e as marcas do tempo no corpo, entremeando memórias da infância como filha de sobreviventes do Holocausto.





