Fliparacatu: Mia Couto leu trecho inédito de livro em encontro com Noemi Jaffe e Jeferson TenórioFoto de Eliézer Fernandes no Pexels
EntretenimentoBraga

Fliparacatu: Mia Couto leu trecho inédito de livro em encontro com Noemi Jaffe e Jeferson Tenório

Agência Incomparáveis29 de agosto de 2026 às 23:07

A programação de encerramento da sexta-feira, 28 de agosto, do 4.º Fliparacatu reuniu o escritor moçambicano Mia Couto e a autora paulistana Noemi Jaffe em um diálogo moderado pelo escritor Jeferson Tenório. O encontro, que fez parte da quarta edição do festival literário realizado em Paracatu, abordou temas como a obra de Guimarães Rosa, o manejo artesanal da linguagem, a beleza da passagem do tempo e a partilha de trabalhos inéditos. Jeferson Tenório abriu o diálogo citando a presença de Guimarães Rosa no festival e a frase de um estudante vencedor do Prêmio de Redação e Desenho: "eu sou literatura".

Mia Couto iniciou sua reflexão sobre as origens do ato de narrar, alertando para o risco de isolar o fazer literário da experiência cotidiana. O autor lembrou que se tornou escritor não apenas pelo gosto de ler livros, mas por prestar atenção às histórias contadas por sua mãe em Moçambique, que traziam para o presente parentes que ele não pôde conhecer. Mia revelou que o escritor angolano Luandino Vieira lhe enviou uma cópia de "A terceira margem do rio", e nenhum outro texto o abalou de forma tão profunda, estando diante das possibilidades de uma linguagem situada na fronteira exata com a oralidade.

Noemi Jaffe, autora do livro "Te dou minha palavra", destacou o respeito e a dimensão quase sagrada que Guimarães Rosa dedicava a cada vocábulo, ressaltarando que a entrega da palavra ao outro carrega uma doação da própria alma. A autora também recuperou a distinção entre o tempo cronológico e a expressão "a hora e a vez", definindo a "vez" como o momento decisivo e transformador no qual o indivíduo precisa se lançar por inteiro. Ambos os autores abordaram as aproximações poéticas entre a infância e a velhice, com Mia relacionando a maturidade ao aprendizado vindo do cuidado com pássaros feridos, principalmente corujas.

Um dos momentos mais marcantes do encontro foi a partilha de leituras. Mia Couto leu, pela primeira vez em público, o primeiro capítulo de seu romance inéditas, com lançamento previsto para o próximo ano, sobre o drama do tráfico e da exploração de jovens em minas abandonadas na África do Sul. Em seguida, Noemi Jaffe leu as páginas iniciais de sua obra "Te Dou Minha Palavra", narrando suas percepções diante do espelho e as marcas do tempo no corpo, entremeando memórias da infância como filha de sobreviventes do Holocausto.

A programação de encerramento da sexta-feira, 28 de agosto, do 4.º Fliparacatu reuniu dois dos mais notáveis nomes da literatura contemporânea em língua portuguesa: o moçambicano Mia Couto e a paulistana Noemi Jaffe. Com mediação de Jeferson Tenório, os autores falaram sobre a obra de Guimarães Rosa, o manejo artesanal da linguagem, a beleza da passagem do tempo e até mesmo sobre trabalhos inéditos.

Jeferson abriu o diálogo resgatando a presença de Guimarães Rosa no festival e citando a frase de um dos estudantes vencedores do Prêmio de Redação e Desenho de edições anteriores do Fliparacatu, que declarou: “eu sou literatura”. Diante dessa provocação, Mia Couto iniciou sua reflexão sobre as origens do ato de narrar, alertando para o risco de isolarmos o fazer literário da experiência cotidiana.

Ao recordar a infância em Moçambique, filho de imigrantes portugueses, Mia contou que se tornou escritor não apenas por seu gosto de ler livros, mas por prestar atenção às histórias contadas por sua mãe. Tais narrativas familiares traziam para o presente os parentes que ele não pôde conhecer fisicamente. Para o autor, a literatura não reside em um pedestal distante, mas na oralidade primordial e na necessidade humana fundamental de dar sentido à existência. Mia também compartilhou o modo como a obra de Guimarães Rosa chegou até ele. A indicação partiu do escritor angolano Luandino Vieira, que lhe enviou uma cópia de “A terceira margem do rio”. Mia revelou que nenhum outro texto o abalou de forma tão profunda, estando diante das possibilidades de uma linguagem situada na fronteira exata com a oralidade.

Ao tomar a palavra, Noemi Jaffe destacou o respeito e a dimensão quase sagrada que Guimarães Rosa dedicava a cada vocábulo. Autora do livro “Te dou minha palavra”, Noemi ressaltou que a entrega da palavra ao outro carrega uma doação da própria alma. A escritora recuperou a distinção entre o tempo cronológico e a expressão “a hora e a vez”, cara à obra de Rosa, definindo a “vez” como o momento decisivo e transformador no qual o indivíduo precisa se lançar por inteiro.

A dimensão do tempo ganhou contornos poéticos quando os convidados abordaram as aproximações entre a infância e a velhice. Mia Couto, biólogo por formação, relacionou a maturidade com o aprendizado vindo do cuidado que teve com pequenos pássaros feridos, em sua maioria corujas, afirmando que a infância e o próprio amor nasceram com as aves e com a dedicação absoluta aos seus ninhos. Noemi Jaffe, por sua vez, reforçou essa simetria apontando como a memória da maturidade tende a resgatar lembranças sensoriais e antigas com uma nitidez impressionante.

Foto: @alnereis

Um dos momentos mais marcantes do encontro foi a partilha de leituras. Mia Couto leu, pela primeira vez em público, o primeiro capítulo de seu romance inédito, com lançamento previsto para o próximo ano. O texto aborda o drama do tráfico e da exploração de jovens em minas abandonadas na África do Sul, contando a dor de uma mãe que perde seu filho. Em seguida, Noemi Jaffe leu as páginas iniciais de sua obra mais recente, “Te Dou Minha Palavra”, narrando suas percepções diante do espelho, encarando as marcas do tempo no corpo e entremeando memórias da infância como filha de sobreviventes do Holocausto.

Assista à conversa neste link:

4.º Fliparacatu

Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.

Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.

Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público. ■

O post Fliparacatu: Mia Couto leu trecho inédito de livro em encontro com Noemi Jaffe e Jeferson Tenório apareceu primeiro em Agência Incomparáveis.

Notícias relacionadas

Entretenimento

BEJA: BAILE MANDADO ENCERRA PALAVRAS ANDARILHAS

O "Baile Mandado", organizado pela Associação PédeXumbo, realiza-se às 20h30 no Auditório do Coreto, em Beja, marcando o encerramento do programa Palavras Andarilhas que decorre no Jardim Público da cidade. O evento promete ser um momento cultural animado que encerra esta iniciativa de promoção da literatura e da cultura na região.

O Atual - Informação de Verdade30/08/26, 00:06
Entretenimento

Lito publica novo vídeo sobre estado de saúde, e mulher mostra estrutura montada para homecare: 'Não estou triste'

O influenciador digital e especialista em aviação Lito Sousa publicou um novo vídeo neste sábado (29) atualizando sobre seu estado de saúde após ser diagnosticado com a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma doença rara, neurodegenerativa e sem cura. Internado há cerca de 20 dias, Lito afirmou estar confiante em sua recuperação e disse não estar triste com a situação, declarando que pretende ser o primeiro a controlar a doença no mundo. O influenciador agradeceu o apoio dos seguidores e destacou a presença constante de sua esposa, Mila Seidl, durante o período de internação, além de mencionar a mobilização dos fãs desde que tornou público o diagnóstico e a estrutura montada para dar continuidade ao tratamento em casa por meio de home care.

oglobo29/08/26, 23:41
Sam The Kid no MEO Kalorama com Orquestra e Orelha Negra: “Tenho de pensar na criança que eu era. Isto é um luxo”
Entretenimento

Sam The Kid no MEO Kalorama com Orquestra e Orelha Negra: “Tenho de pensar na criança que eu era. Isto é um luxo”

Sam The Kid, acompanhado pela Orquestra e por Orelha Negra, subiu ao palco do MEO Kalorama no sábado, dia 29 de agosto, no Parque Tejo, em Lisboa. Antes do concerto, o artista conversou com o SAPO sobre o projeto, refletindo que precisa de pensar na criança que foi ao criar estas apresentações, considerando-as um verdadeiro luxo.

SAPO Notícias29/08/26, 23:26
Festa e arraial no centro da cidade do Porto Santo
Entretenimento

Festa e arraial no centro da cidade do Porto Santo

Este fim-de-semana realiza-se no centro da cidade do Porto Santo a tradicional festa de Nossa Senhora da Piedade, um evento muito acarinhado pela população local que transforma a zona central da ilha em palco de celebração e arraial.

SAPO Notícias29/08/26, 23:21