QUANDO O PODER PEGA NA UVA: PENAMACOR, A VINDIMA E A PORTUGALIDADE QUE NÃO CABE NOS GABINETESFoto de Leandro Verolli no Pexels
PolíticaCastelo Branco

QUANDO O PODER PEGA NA UVA: PENAMACOR, A VINDIMA E A PORTUGALIDADE QUE NÃO CABE NOS GABINETES

oRegiões29 de agosto de 2026 às 17:09

No dia 29 de agosto de 2026, António José Seguro, Presidente da República, publicou na sua página de Facebook uma fotografia tirada em Penamacor, na qual surge a participar na vindima. A publicação continha apenas as palavras «Hoje viemos ajudar na vindima, em Penamacor», acompanhadas de um desejo de «uma excelente vindima e uma boa colheita» para todos os que, nesse período, colhem uvas pelo país. A imagem mostra o chefe de Estado num contexto rural e agrícola, longe de palácios ou cerimónias oficiais.

O artigo, da autoria de Fernando Jesus Pires, diretor do jornal independente O Regiões, analisa o significado simbólico deste momento. A crónica destaca que Portugal continua a ser um país de contrastes, onde se fala frequentemente do interior e da agricultura, mas onde existe uma distância considerável entre o discurso político e a vida concreta de quem trabalha a terra. A vindima é descrita como um momento que vai além da economia, representando também memória, cultura, tradição e encontro comunitário.

O autor argumenta que a presença de um Presidente da República numa vindima representa uma proximidade institucional rara com o mundo rural, mas alerta que a fotografia é apenas um princípio. A crónica sublinha que o trabalho agrícola tem características que a política moderna não compreende sempre: a terra não aceita pressa, a vinha não conhece calendários eleitorais e a uva não amadurece por decreto. As comunidades rurais sobrevivem através de uma transmissão silenciosa de conhecimentos entre gerações, que transforma tradições em património vivo.

A peça questiona se Portugal será capaz de olhar para o seu interior não apenas quando chega a época das fotografias, mas durante todo o ano em que a terra exige trabalho. Fernando Jesus Pires defende que o interior não pede piedade nem condescendência, mas reconhecimento, condições, atenção política e respeito. A crónica conclui que, embora a fotografia fique como registo e a tradição continúe, a verdadeira questão é se o país conseguirá construir o futuro de um território todos os dias, e não apenas colher a uva num dia.

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Foto: Fernando Jesus Pires – Diretor de ORegiões

Há fotografias políticas que procuram o poder. E há fotografias em que, por um instante, parece ser o poder a procurar a terra.

Neste sábado, 29 de agosto de 2026, António José Seguro, Presidente da República, publicou na sua página de Facebook uma fotografia acompanhada de algumas linhas. O cenário não era um palácio, uma cerimónia oficial ou uma sala de Estado. Era Penamacor. E a tarefa era uma das mais antigas do calendário rural português: a vindima.

«Hoje viemos ajudar na vindima, em Penamacor.»

Poucas palavras. Uma frase sem ornamento. Mas há frases que ganham dimensão precisamente porque não precisam de gritar.

A imagem de um Presidente da República associado ao trabalho da vinha tem uma força que ultrapassa o instante em que foi publicada. Não porque deva ser transformada, artificialmente, numa declaração política que o seu autor não fez, mas porque a escolha daquele lugar e daquela atividade transporta consigo uma simbologia impossível de ignorar.

Portugal continua a ser um país de contrastes. Fala-se muito do interior, mas nem sempre se olha verdadeiramente para quem o sustenta. Fala-se da agricultura, mas frequentemente esquecem-se as mãos que lhe dão corpo. Fala-se de território, mas existe uma distância considerável entre a palavra «território» e a vida concreta de quem nele trabalha.

Depois, há dias como este.

Um Presidente da República em Penamacor, junto de uma comunidade ligada à vindima, coloca no centro da imagem aquilo que tantas vezes permanece nas margens do discurso público: o trabalho.

E o trabalho agrícola tem uma característica que a política moderna, com a sua vertigem mediática, nem sempre compreende. A terra não aceita pressa.

A vinha não conhece calendários eleitorais.

A uva não amadurece por decreto.

O campo não se governa por comunicados.

Há um tempo para plantar, um tempo para cuidar, um tempo para esperar e um tempo para colher. A vindima chega quando a terra determina que chegou. E, nesse momento, não há discurso que substitua as mãos.

Talvez seja esta a primeira grande lição escondida numa fotografia aparentemente simples: a de que existe um Portugal que trabalha enquanto o país discute.

Existe um Portugal que acorda cedo, enfrenta o calor, cuida das culturas, calcula custos, olha para o céu e espera que a colheita compense um ano inteiro de esforço.

Existe um Portugal que não aparece todos os dias nas primeiras páginas, mas que continua a alimentar uma parte substancial da identidade económica, social e cultural do país.

E esse Portugal também tem direito a ser visto.

António José Seguro escreve que a vindima é «um momento de trabalho, mas também de alegria, partilha e confraternização». A formulação é particularmente feliz porque não reduz a vindima à economia.

A vinha é trabalho, mas também é memória.

É produção, mas também é cultura.

É esforço, mas também é encontro.

É passado, mas continua a ser presente.

Nas comunidades rurais, determinadas tradições não sobrevivem apenas porque alguém decidiu preservá-las. Sobrevivem porque ainda fazem sentido para as pessoas. Porque ainda juntam famílias, amigos e vizinhos. Porque ainda existe uma geração que aprendeu com outra a reconhecer o tempo da colheita.

É nessa transmissão silenciosa que uma tradição deixa de ser folclore e passa a ser património vivo.

Penamacor aparece, assim, não apenas como o local de uma atividade agrícola, mas como expressão de uma realidade maior. Uma realidade interior que não pede piedade nem condescendência; pede reconhecimento.

O interior não é uma fotografia triste à espera de uma legenda política.

Não é um território vazio.

Não é uma periferia condenada à nostalgia.

É uma parte essencial de Portugal.

E é precisamente por isso que uma vindima pode dizer mais sobre o país do que muitas páginas de retórica territorial.

Porque ali está a realidade sem maquilhagem:

A terra.

A uva.

O trabalho.

A comunidade.

A esperança de uma boa colheita.

E também a vulnerabilidade de quem depende de fatores que não controla.

Quem trabalha uma vinha sabe que, entre a promessa e o resultado, existe sempre um intervalo de incerteza. Um ano inteiro pode estar concentrado naquele momento. Cada cacho representa meses de trabalho. Cada colheita transporta a expectativa de que o esforço não tenha sido em vão.

É por isso que a frase final da publicação presidencial merece atenção.

O Presidente deseja «uma excelente vindima e uma boa colheita» a todos os que, por estes dias, andam pelas vinhas do país.

A mensagem ultrapassa Penamacor. Dirige-se a uma realidade nacional.

E essa realidade merece mais do que aplausos ocasionais.

Merece atenção política.

Merece condições.

Merece respeito.

Merece futuro.

Uma fotografia não resolve nenhum desses problemas. Nem seria sério pedir a uma fotografia aquilo que compete às políticas públicas, às instituições e às decisões concretas.

Mas uma fotografia pode fazer uma coisa importante: pode obrigar-nos a olhar.

E, neste caso, olhar para a vinha é olhar para um país que permanece demasiado distante das imagens dominantes da modernidade.

Há uma tendência para imaginar o progresso apenas através das grandes cidades, da tecnologia, das infraestruturas, dos centros empresariais e dos novos setores económicos. Tudo isso é indispensável.

Mas um país moderno não pode ter vergonha das suas raízes.

Não pode tratar a agricultura como uma atividade menor.

Não pode transformar o interior numa nota de rodapé.

Não pode celebrar a gastronomia e o vinho sem olhar para aqueles que trabalham a terra.

Não pode consumir território sem cuidar das comunidades que lhe dão vida.

A vindima recorda-nos essa verdade com uma simplicidade quase brutal: antes da garrafa há a vinha; antes da vinha há a terra; antes da colheita há o trabalho; e, antes de tudo isso, há pessoas.

Pessoas que raramente pedem discursos.

Pedem, muitas vezes, apenas que o seu trabalho seja reconhecido.

É nesse ponto que a presença de um Presidente da República numa vindima ganha particular significado simbólico.

Não é necessário exagerá-la.

Não é necessário transformá-la numa epopeia.

Não é necessário atribuir-lhe intenções que não foram declaradas.

Basta reconhecer o valor da imagem.

O poder, por uma vez, aparece junto de uma atividade que não precisa de palcos para existir.

Uma atividade que não depende de aplausos.

Uma atividade que continua porque tem de continuar.

E talvez exista aqui uma imagem particularmente forte da própria República: a autoridade máxima do Estado perante uma realidade que lembra que nenhuma sociedade se sustenta apenas com instituições. Sustenta-se também com trabalho, com comunidade, com território e com pessoas.

A vinha não pergunta quem governa.

A terra não distingue partidos.

A colheita não conhece ideologias.

Mas aqueles que trabalham a terra vivem, inevitavelmente, dentro das consequências das decisões políticas.

É por isso que a proximidade institucional com o mundo rural tem valor quando não fica apenas pela fotografia.

A fotografia é o princípio.

A atenção é o passo seguinte.

A política concreta será sempre o verdadeiro teste.

Não cabe a esta crónica antecipar esse teste nem atribuir ao Presidente da República compromissos que a publicação não contém. Cabe, isso sim, aproveitar o significado do momento para colocar uma pergunta maior: que lugar queremos reservar ao interior, à agricultura e às comunidades rurais no futuro de Portugal?

Essa é uma pergunta que não cabe apenas a Penamacor.

Cabe ao país inteiro.

Porque, quando uma aldeia perde pessoas, perde-se mais do que população.

Quando uma exploração agrícola desaparece, perde-se mais do que produção.

Quando uma tradição deixa de ser praticada, perde-se mais do que um ritual.

Perde-se uma ligação.

E um país que perde ligações pode continuar a existir no mapa, mas começa a desaparecer da sua própria memória.

Por isso, neste sábado de agosto, a fotografia de António José Seguro na vindima merece ser observada sem propaganda e sem cinismo.

Nem hagiografia, nem desconfiança automática.

Apenas atenção.

Porque há momentos em que a política pode ser lida também através daquilo que escolhe mostrar.

E aquilo que o Presidente mostrou foi Penamacor, uma vinha, uma vindima e uma comunidade.

Num país habituado a olhar para o poder a partir de cima, vale a pena olhar para esta imagem a partir de baixo.

A partir da terra.

A partir das mãos.

A partir daquilo que permanece quando acabam os discursos.

A vindima não é apenas a colheita de uvas.

É a confirmação de que alguém trabalhou durante um ano inteiro para chegar àquele dia.

E talvez seja essa a imagem que mais falta à política contemporânea: a consciência de que, entre a promessa e o resultado, existe sempre trabalho.

Em Penamacor, neste sábado, o Presidente da República foi ajudar na vindima.

A fotografia ficará como fotografia.

A tradição continuará como tradição.

Mas a pergunta fica para além das duas:

Será Portugal capaz de olhar para o seu interior não apenas quando chega a época das fotografias, mas durante todo o ano em que a terra exige trabalho?

É aí que começa a verdadeira discussão.

Porque a uva colhe-se num dia.

Mas o futuro de um território constrói-se todos os dias.

Fernando Jesus Pires

Jornalista CP-Nacional, CP-Internacional, Diretor do jornal independente O REGIÕES

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