Em julho, decorreu em Sintra um encontro de um movimento de mulheres conservadoras, cujo lançamento oficial está previsto para novembro. O grupo é liderado pela fundadora Rebeca Batista e conta com a participação de quatro deputadas de partidos de extrema-direita, três portuguesas e uma brasileira, além de outras figuras como uma jurista, uma advogada, duas consultoras na área das Relações Internacionais, duas influencers e uma psicanalista.
De acordo com a fundadora, o movimento surge como resposta ao que ela considera ser um problema com parte do feminismo atual, que, segundo Rebeca Batista, "passa a interpretar a sociedade sobretudo através de uma lógica interseccional e de conflito entre grupos". Várias participantes do grupo defendem também as ações do governo de Israel em Gaza.
O movimento manifesta proximidade às igrejas evangélicas, embora a Aliança Evangélica Portuguesa se tenha demarcado do grupo. O movimento defende a "proteção da vida desde a conceção" e que o casamento é entre um homem e uma mulher, posições que a crónica nota serem semelhantes às da Aliança Evangélica Portuguesa. O manifesto do movimento está ainda a ser redigido com contribuições de várias participantes.
O encontro gerou debate público, com a crónica de Raphael Mesquita a criticar a aparente contradição de um grupo de mulheres com formação superior e relevância política se posicionar contra o feminismo, considerando-o desnecessário para a sua situação atual.
Crónica de Raphael Mesquita
Agora é que são elas
Em julho, em Sintra, houve um encontro de um movimento de mulheres conservadoras. O lançamento oficial será feito em novembro. Imagino que seja assim, provavelmente, para dar tempo de todas as participantes receberem a devida autorização do cabeça de família.
O anúncio de tal grupo suscita questões: quem é que vai ser o porta-voz? Algum marido? E qual será o movimento? Da cama para a cozinha, conforme ele mandar?
No encontro estiveram presentes três deputadas portuguesas e uma deputada brasileira. Afinal, se há algo em que uma pessoa pensa quando pensa numa mulher conservadora, é em alguém independente e com voz num parlamento político.
Além disso, estiveram presentes, entre outras, uma jurista, uma advogada, duas consultoras na área das Relações Internacionais, duas influencers, uma psicanalista e uma evidente falta de gosto pelo feminismo que lhes permitiu ser isso tudo.
De acordo com a fundadora, Rebeca Batista, “o problema surge quando uma parte do feminismo (…) passa a interpretar a sociedade sobretudo através de uma lógica interseccional e de conflito entre grupos”. Tendo em conta que deste grupo faziam parte quatro deputadas de partidos de extrema-direita, nota-se, realmente, o quanto são contra conflitos entre grupos.
Entre elas encontram-se também várias pessoas que defendem as ações do governo de Israel em Gaza, o que só sublinha que conflitos não é cá com elas.
Nas notícias sobre o encontro, destacou-se a possível aproximação a igrejas evangélicas. Já a Aliança Evangélica Portuguesa demarcou-se do movimento, ou não fosse alguém pensar que uma religião baseada em princípios da família tradicional seria representada por um grupo de mulheres.
O conjunto de igrejas evangélicas diz-se apartidário, tal como o movimento de mulheres conservadoras; defende “a proteção da vida desde a conceção”, tal como o movimento de mulheres conservadoras; e defende que o casamento é entre um homem e uma mulher, tal como o movimento de mulheres conservadoras. Podia continuar a lista, mas encheria o texto com muitas meras coincidências.
O manifesto do movimento ainda está a ser redigido com submissões de ideias de várias pessoas. Promete ser um texto e tanto, tendo em conta que, se há algo de que entendem, é de submissões.
Um grupo de mulheres com formação superior, liberdade de expressão, liberdade de escolha, autonomia e relevância política acha que o feminismo não as representa. É como um peixe achar que o mar tem demasiada humidade.
Não há nada como ser contra aquilo que lhes garantiu o direito de se manifestarem. Às tantas, isso do feminismo é só para o que lhes dá jeito.
Raphael Mesquita
Sobre o autor
Sou o Rafu, comediante com 6 anos de experiência, nascido no Brasil, filho de mãe angolana e com raízes portuguesas - uma mistura que me proporciona um olhar único sobre as realidades dos dois lados do Atlântico. Atualmente vivo no Porto, após percursos por Lisboa e Coimbra, deixando abaixo uma breve apresentação:
«O Rafu é um jovem velho, de Coimbra a viver no Porto; Não é pessoa de meias medidas (veste uma de cada tamanho) e sabe como as palavras podem magoar (porque uma vez um livro lhe caiu em cima). O Rafu nasceu no Brasil, a mãe é angolana, a avó portuguesa e às vezes vê-se russo com isso. Foi vocalista de uma banda, o que lhe valeu o primeiro emprego e a falta de vida própria. Deixou Lisboa porque estava cansado de pedir uma torrada em inglês. Trabalha muito, ganha pouco e só precisa de uma oportunidade (e algum dinheiro, vá). Fez de padre numa curta metragem, foi o mais próximo que esteve de ser santo».
Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Raphael Mesquita