Igreja/IA: Capelão da Universidade de Coimbra rejeita «falsa ideia de progresso» perante avanço tecnológico desreguladoFoto de Johann Knorst no Pexels
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Igreja/IA: Capelão da Universidade de Coimbra rejeita «falsa ideia de progresso» perante avanço tecnológico desregulado

Agência ECCLESIA29 de agosto de 2026 às 08:04

O capelão da Universidade de Coimbra, padre Nuno Fileno, alertou para os riscos de uma evolução tecnológica desregulada, rejeitando a "falsa ideia de progresso" quando a velocidade da técnica supera a da dignidade humana. Em entrevista à Agência ECCLESIA, o sacerdote criticou a delegação de decisões morais na inteligência artificial, alertando que equiparar a IA à inteligência humana é um equívoco, pois embora mais eficiente, a IA carece de consciência moral. Nuno Fileno evocou a visão cristã da vulnerabilidade para criticar as promessas transhumanistas, defendeu que a regulação não pode ficar restrita aos programadores e denunciou a "face oculta" da transição digital, incluindo a extração massiva de recursos naturais e a exploração de mão de obra. O capelão universitário defendeu ainda o "jejum" coletivo proposto por Leão XIV como antídoto contra a ansiedade contemporânea.

Padre Nuno Fileno alerta para impacto de uma evolução técnica desprovida de limites éticos

Foto de Growtika na Unsplash

Lisboa, 29 ago 2026 (Ecclesia) – O capelão da Universidade de Coimbra alertou para o risco de delegar decisões morais na inteligência artificial (IA), denunciando o impacto de uma evolução técnica desprovida de limites éticos.

“O perigo é a velocidade da técnica ser superior à da dignidade, o que depois gera, para além de assimetrias maiores, uma falsa ideia de progresso, porque o progresso não pode ser apenas o da técnica”, advertiu o padre Nuno Fileno em entrevista à Agência ECCLESIA.

O responsável pela Pastoral Universitária na diocese evocou a visão cristã da vulnerabilidade, sublinhando que a ambição de erradicar o sofrimento através da tecnologia resultaria na eliminação simultânea da capacidade de amar.

“Se nós quisermos eliminar totalmente o sofrimento, teríamos de eliminar também o desejo e o amor”, explicou o sacerdote, perante as promessas ilusórias do transumanismo de que fala Leão XIV, na sua encíclica ‘Magnifica Humanitas’.

O entrevistado reflete sobre o impacto da delegação do escrutínio bélico e a concentração do poder na IA originam uma opacidade perigosa, defendendo que a regulação não pode ficar restrita aos criadores dos algoritmos.

“Se deixamos essa reflexão simplesmente nas mãos de quem programa, de quem tem o poder sobre a inteligência artificial, corremos o risco de estarmos também, inconscientemente, ao serviço de critérios desumanos”, alertou.

O equívoco maior é equiparar a inteligência artificial à inteligência humana, porque ela pode ser mais eficiente e rápida, mas a falta de experiência e da própria consciência moral torna a sua capacidade de escolha e de decisão muitíssimo frágil.”

O investigador denunciou igualmente a “face oculta” da transição digital, recordando que a arquitetura dos dados exige a extração massiva de recursos naturais e a exploração de mão de obra mal paga.

“O Papa fala destas ‘terras raras’ que hoje são também os dados pessoais, que são agrupados e ficam nas mãos de alguns, não sabemos com que finalidade. Essa é uma questão muitíssimo importante”, apontou.

O capelão universitário destacou ainda a importância de ensinar os alunos a assumir a profundidade do processo pedagógico, sem atalhos nem respostas prontas a consumir.

“Anulando essas etapas intermédias e decisivas, estamos a esquecer o que somos, quem somos”, defendeu o padre Nuno Fileno.

O convite de Leão XIV a um “jejum” coletivo destas ferramentas, assinalou o responsável, assume-se como um antídoto contra a ansiedade contemporânea.

“Parar, descansar e fazer silêncio é fundamental para escutarmos Deus. Nem tudo o que é rápido ou eficiente nos faz crescer humanamente”, sustentou, criticando a ditadura da atenção imposta pelo mercado.

A entrevista que vai ser emitida este domingo, na RTP Antena 1 (06h00), é a quarta de um ciclo de conversas sobre a IA, à luz da encíclica de Leão XVI publicada a 25 de maio, que aborda os enormes éticos e antropológicos levantados por estas ferramentas digitais.

OC

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