Não basta pôr vista mar e chamar-lhe ExperiênciaFoto de E. Alfro no Pexels
NegóciosAveiro

Não basta pôr vista mar e chamar-lhe Experiência

NotíciasdeAveiro.pt29 de agosto de 2026 às 00:07

Portugal tem vindo a celebrar recordes turísticos nos últimos anos, consolidando o setor como um dos principais motores da economia nacional. No entanto, a autora Sofia Almeida alerta que o país poderá não estar preparado para um turista cada vez mais exigente, informado e menos impressionável. A questão central é se Portugal está pronto para responder a estas novas exigências.

O viajante contemporâneo mudou rapidamente e já não se contenta apenas com paisagens bonitas ou hotéis bem localizados. Procura autenticidade, personalização, propósito e, acima de tudo, coerência entre o que os destinos prometem e o que efetivamente entregam. O turista atual está mais consciente, mais digital, mais comparativo e menos tolerante à desilusão, consultando avaliações e procurando recomendações antes mesmo de chegar ao destino.

Portugal continua a beneficiar de ativos extraordinários como segurança, património, gastronomia, clima, hospitalidade e diversidade territorial. Contudo, a autora alerta que confiar apenas nesses atributos pode ser um erro estratégico, pois a competitividade turística não é estática. A autenticidade e a sustentabilidade terão de passar de slogans a experiências genuínas e práticas visíveis.

A tecnologia, incluindo a inteligência artificial, pode desempenhar um papel importante nesta transformação, não para substituir a hospitalidade humana, mas para a reforçar. A autora conclui que o maior risco do sucesso turístico é a complacência, e que o verdadeiro teste de maturidade não está na capacidade de crescer, mas na capacidade de evoluir e permanecer relevante num mercado cada vez mais exigente.

Num contexto de crescente exigência, autenticidade e personalização, o turismo português terá de fazer mais do que confiar no que sempre funcionou.

Por Sofia Almeida *

Portugal habituou-se, nos últimos anos, a celebrar recordes turísticos. Mais hóspedes, mais dormidas, mais receitas. O turismo consolidou-se como um dos principais motores da economia nacional e tornou-se um caso de sucesso internacional. E ainda bem. Contudo, perante este cenário positivo, talvez seja tempo de colocar uma questão menos confortável, mas necessária: estaremos preparados para um turista cada vez mais exigente e mais informado— e, acima de tudo, menos impressionável?

O viajante mudou. E mudou rapidamente. Tão rápido que andamos todos a discutir a Inteligência Artificial e o seu impacto no emprego das pessoas, mas poucos pararam para pensar no impacto da IA nas escolhas do visitante/consumidor.

Se, há alguns anos, bastava uma paisagem bonita, um hotel bem localizado e uma fotografia “instagramável” para gerar entusiasmo, hoje as expectativas são substancialmente mais elevadas. O turista contemporâneo procura autenticidade, personalização, propósito e, sobretudo, coerência entre aquilo que os destinos prometem e aquilo que efetivamente entregam. Já não basta dizer que um destino é sustentável — é preciso demonstrá-lo. Já não basta oferecer hospitalidade — é necessário criar experiências memoráveis e diferenciadoras. E já não basta promover um território — importa compreender profundamente quem nele habita, quem o visita e o que verdadeiramente valoriza.

A verdade é que o turista atual está mais consciente, mais digital, mais comparativo e menos tolerante à desilusão. Consulta avaliações, compara experiências, procura recomendações de outros viajantes e já procura recomendações de Agentes de IA, e constrói expectativas antes mesmo de chegar ao destino

Portugal continua a beneficiar de ativos extraordinários: segurança, património, gastronomia, clima, hospitalidade e diversidade territorial. Mas confiar apenas nesses atributos pode ser um erro estratégico. O risco de qualquer destino de sucesso é começar a depender excessivamente daquilo que sempre funcionou, esquecendo que a competitividade turística não é estática.

Talvez o maior desafio não seja atrair turistas, mas continuar a surpreendê-los.

A autenticidade, tantas vezes usada como palavra-chave nas campanhas promocionais, terá de deixar de ser apenas um slogan e passar a traduzir-se em experiências genuínas, contacto real com comunidades locais, valorização do património e propostas menos standardizadas.

O mesmo acontece com a sustentabilidade, que não pode continuar a existir apenas no discurso, mas deve tornar-se visível nas práticas dos destinos e das empresas. Também a tecnologia terá um papel crescente nesta transformação. Não para substituir o lado humano da hospitalidade — um dos maiores ativos do turismo português — mas para o reforçar. A inteligência artificial, os dados e a personalização podem ajudar as empresas e os destinos a compreender melhor os seus visitantes, antecipar preferências e criar experiências mais relevantes. Será o regresso dos softwares de Customer Relationship Management? Mas existe uma questão central que o setor não pode ignorar: o turista do futuro será provavelmente mais seletivo, mais consciente e mais exigente em relação ao valor da experiência. E valor já não significa apenas preço; significa relevância, autenticidade e significado.

Portugal poderá estar parcialmente preparado para esta empreitada, mas o verdadeiro teste da maturidade turística não está apenas na capacidade de crescer; está na capacidade de evoluir. Porque o maior risco do sucesso turístico é a complacência: acreditar que aquilo que funcionou ontem continuará, inevitavelmente, a funcionar amanhã. Num mercado cada vez mais exigente, permanecer relevante será, provavelmente, o verdadeiro indicador de competitividade do turismo português.

* Coordenadora Científica da Área de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia e Investigadora do CETRAD-Europeia. Artigo publicado no site Publituris.pt.

O conteúdo Não basta pôr vista mar e chamar-lhe Experiência aparece primeiro em NotíciasdeAveiro.pt.

Notícias relacionadas

Negócios

Kevin Warsh, do Fed, alerta que a inflação está muito alta, gerando apostas que aumentos nas taxas estão chegando

Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, alertou que a inflação permanece muito alta, emitindo um discurso hawkish que foi interpretado pelos investidores como sinal de que aumentos nas taxas de juros estão por vir. Embora Warsh tenha evitado comentar diretamente sobre o rumo que pretende dar às taxas, sua posição dura em relação à inflação alimentou especulações no mercado sobre uma possível elevação dos juros pelo Fed em breve.

Tuugo29/08/26, 01:19
Negócios

Magnata venezuelano é apontado como articulador do acordo de Trump para controle do petróleo da Venezuela pelos EUA

O magnata venezuelano Alejandro Betancourt, que fez fortuna vendendo turbinas de geração de energia e extraindo petróleo, emergiu como um dos articuladores do acordo anunciado pelo presidente americano Donald Trump, que dá aos Estados Unidos o controle majoritário de mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo da Venezuela. Betancourt, empresário de histórico controverso que controla a principal produtora independente de petróleo do país, está ajudando o governo americano a identificar ativos energéticos promissores, avaliar gargalos operacionais e estabelecer conexões com o setor.

oglobo29/08/26, 01:09
Negócios

Renault apresenta novo Trafic elétrico no salão IAA Transportation

A Renault vai marcar presença no salão IAA Transportation 2026, em Hanôver, na Alemanha, onde vai apresentar o novo Trafic elétrico, reforçando a sua aposta na mobilidade sustentável e na eletrificação da sua gama de veículos comerciais leves. O evento, uma das principais feiras internacionais do setor de transportes, servirá de palco para a marca francesa demonstrar os seus avanços tecnológicos no segmento dos veículos comerciais elétricos.

Notícias de Coimbra29/08/26, 00:42
Negócios

NSX Brasil: quem é a dona da Betnacional alvo de operação por suspeita de lavagem de dinheiro e sonegação

A NSX Brasil, dona da plataforma de apostas Betnacional, é alvo da Operação Jogo de Sombras deflagrada pelo Ministério Público Federal e pela Receita Federal, sendo suspeita de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A Betnacional, que patrocina clubes como Cruzeiro e Sport Recife e tem Vinicius Jr. como garoto-propaganda, figura entre os dez maiores sites de apostas do país e é controlada pela NSX, braço brasileiro do conglomerado britânico Flutter, cujas ações são negociadas na NYSE. O Brasil é considerado um mercado estratégico de crescimento pela empresa.

oglobo29/08/26, 00:27