O artigo aborda a resurgence do antigo Movimento Nacional Feminino (MNF) do Estado Novo, agora travestido de Movimento Mulheres Conservadoras de Portugal. As suas líderes provêm de partidos como o Chega, o CDS residual, uma deputa federal do Brasil e uma ativista do PSD, que o autor critica por promoverem os "valores bíblicos", renegarem a imigração e apoiarem a extrema-direita brasileira e o bolsonarismo.
O autor, médico com doutoramento em Medicina de Família, questiona a autoridade académica que estas mulheres se arrogam sem base científica. Refere que existem 34 tipos de família segundo a estrutura e dinâmica familiar, contra a conceção única de "família tradicional" que o Movimento defende.
O artigo identifica este Movimento com as "mulheres de Atenas" de Chico Buarque e Augusto Boal, representando submissão e papel secundário da mulher na sociedade patriarcal. São contra o aborto mesmo em casos de violação, o que o autor considera a maior desumanidade, desrespeitando a lei e os sentimentos classificados como distúrbio pós-traumático pela OMS.
O autor conclui que o Movimento pretende transformar a mulher em objeto, sendo anti-progresso e anti-ciência, conduzindo a violência de género, desigualdade laboral, crises de saúde mental e limitação da circulação das mulheres no espaço público, apelando a uma reflexão coletiva em exercício democrático.
“Passa a Mocidade passa, E a malta grama vê-la passar, Com a Legião à frente, E a PIDE ao lado do Salazar; Vem a Gertrudes, mai-la Supico,…” era uma canção satírica da resistência à ditadura e ao fascismo, trauteada pelos antifascistas e lutadores pela democracia, antes do 25 de Abril, cantiga de escárnio de tradição oral.
A Gertrudes era a veneranda (?) esposa do presidente fantoche Américo Tomás e a “Supico” (a “rainha do tricot”), era a presidente do Movimento Nacional Feminino (MNF), organização de apoio ao regime do Estado Novo (de Salazar e Caetano), escutada por Salazar, sendo um instrumento da propaganda civil da política ultramarina, defensora dos valores do regime fascista e da persistência das colónias a todo o custo, transmitindo incentivo ideológico e material aos soldados portugueses na guerra colonial.
Eis que 52 anos depois, o MNF voltou, travestido de Movimento Mulheres Conservadoras de Portugal, tendo como figuras de proa na liderança do retrocesso civilizacional e agentes de popa contra a democracia e os direitos das mulheres, destacadas militantes do Chega (até de plataformas para adultos), do CDS residual (do tempo volta p´ra trás) e até uma deputada federal do Brasil e uma ativista do PSD (social democrata, onde?), que é veraneante à custa de quem promove o genocídio em Gaza, arrogante, mal-educada e petulante quanto baste.
Estranhamente, este Movimento cujas promotoras promovem os “valores bíblicos” e o cristianismo e renegam a imigração e os direitos humanos tout court, apoiam a extrema-direita brasileira, o bolsonarismo e a agenda protestante evangélica.
Dizem apoiar a família conservadora (tradicional), como se houvesse apenas um tipo de família, arrogando-se de autoridade académica e curricular que não têm e até de especialistas em comunicação sem formação, quando existem 34 tipos de família, segundo a estrutura a dinâmica familiar, a relação conjugal e a relação parental.
Doutorei-me em Medicina de Família, investigando também os novos tipos de família e criando um novo método de avaliação familiar, trabalho que se encontra no TOP 1% com mais visualizações e download / transferência de conteúdo do repositório da Universidade de Coimbra (em 72.526 produtos científicos), e não encontrei na base científica nenhuma referência ou citação destas mulheres.
São verdadeiras “mulheres de Atenas”, segundo Chico Buarque e Augusto Boal, que representam a submissão, a resignação e o papel secundário da mulher numa sociedade patriarcal, servidoras que vivem em função dos maridos e suas vontades, anulam-se pessoalmente e são passivas perante a violência familiar, são contra o aborto como direito das mulheres, mesmo em casos de violação.
Que maior desumanidade do que condenar uma mulher violada a prosseguir uma gravidez do seu agressor, um violador desconhecido ou em consanguinidade, desrespeitando a lei e os sentimentos classificados pela OMS como distúrbio pós-traumático do stress (DPTS)?
Na prática, este Movimento pretende transformar a mulher e os seus direitos em mulher-objecto, como retrógrada na mente, anti-progresso da ciência e do conhecimento, elemento comercial ou decorativo, questionando o seu valor pessoal e autoestima e aculturando-se a padrões acessórios, o que conduz a violência de género, a persistência da desigualdade laboral, a crises em saúde mental, a limitação da circulação no espaço público e a adulteração das relações afectivas.
Como chegámos aqui e como daqui saímos, é uma reflexão que deve ser feita individual e coletivamente, em liberdade e exercício democrático, esclarecedor e não manipulativo, em família e na sociedade civil organizada.
(*) Médico