Em Agosto de 2025, um incêndio devastador atingiu as Hautes Fagnes, uma importante reserva natural belga localizada perto da fronteira com a Alemanha. O fogo, que teve início no dia 14 de Agosto, consumiu mais de 3 mil hectares, tornando-se o maior incêndio na Bélgica desde 1911. Apesar da dimensão do desastre, não houve registo de vítimas mortais. A Bélgica, conhecida pelo seu clima tipicamente húmido e chuvoso, raramente é afectada por incêndios florestais de grande escala, o que tornou este evento particularmente notável nos media portugueses.
A comparação com Portugal revela diferenças significativas em termos de exposição ao risco de incêndios. Enquanto o incêndio belga destruiu 3 mil hectares, o incêndio do Piódão em Portugal consumiu 64 mil hectares num território de dimensão semelhante. O artigo analisa o chamado "triângulo do fogo", composto por combustível, oxigénio e ignição, argumentando que apenas o combustível e as ignições merecem atenção, uma vez que o oxigénio continuará sempre abundante. As principais hipóteses para a origem do fogo na Bélgica apontam para o manuseamento de uma máquina agrícola, enquanto o incêndio do Piódão terá começado com uma trovoada seca.
O artigo associa o aumento da frequência e intensidade destes incêndios às alterações climáticas, que criam condições mais favoráveis à propagação do fogo. A regra dos 30-30-30, que combina temperaturas superiores a 30 graus, humidade inferior a 30% e vento acima de 30 km/h, ilustra como as condições atmosféricas propícias ao fogo estão fora do controlo humano. Embora campanhas de sensibilização e proibições de queimadas sejam úteis, o artigo sustenta que reduzir as ignições a zero é uma utopia, pois qualquer faísca pode desencadear um desastre quando as condições são propícias.
Quanto à gestão do combustível, o artigo destaca que Portugal é o maior produtor mundial de eucaliptos, tanto por quilómetro quadrado como per capita. Esta árvore altamente inflamável contribui para a gravidade dos incêndios, embora não seja a única responsável. O artigo conclui que a revitalização do interior português, com mais pessoas a habitar e explorar o território, seria um passo fundamental para mitigar as catástrofes que ciclicamente afectam o país.
Os noticiários oferecem-nos diariamente notícias de natureza internacional: as guerras levam a parte de leão, e diversas outras catástrofes ocorridas bem longe de Portugal desfilam nos noticiários com regularidade. Bruxelas é frequentemente referida, mas o mais das vezes como metonímia para aludir aos centros decisórios da União Europeia. O país propriamente dito raramente é palco de eventos noticiados em Portugal. Porém, este mês de Agosto houve uma excepção, devido ao lastimável incêndio que destruiu uma parte significativa de uma importantíssima reserva natural belga. As Hautes Fagnes, bem perto da fronteira com a Alemanha, foram assoladas por um incêndio devastador – o maior na Bélgica desde 1911. Felizmente não houve vidas perdidas a lamentar, mas bem se percebe que o evento seja notícia. A Bélgica, com o seu típico clima húmido e chuviscoso, raramente é vítima de incêndios florestais. Porém, o passado dia 14 de Agosto marcou o início de um fogo que consumiu, até ao momento presente, mais de 3 mil hectares. Para se ter uma ideia comparativa, em Portugal, que tem uma dimensão próxima da da Bélgica, em 2025 o terrível incêndio do Piódão consumiu 64 mil (!) hectares. Um incêndio de proporções épicas na Bélgica passaria relativamente discreto num Verão português. Parte do choque resulta pois deste efeito de novidade, que muitos atribuem às alterações climáticas: Verões mais quentes e secos resultam em condições mais favoráveis a incêndios. Enquanto por lá se discute a dimensão do efectivo de bombeiros voluntários e profissionais ou as melhores estratégias de prevenção de incêndios, vale lembrar que o triângulo do fogo (combustível, oxigénio e ignição) deixa claro que, para sorte nossa, só o combustível e as ignições merecem atenção, porque o oxigénio, valha-nos isso, ainda vai existindo em abundância e ainda ninguém se lembrou de propor a sua taxação. Já as ignições são um ponto crucial, mas desengane-se quem pense que um qualquer arsenal sancionatório draconiano vai reduzi-las a zero. Se as campanhas de sensibilização e as proibições de queimadas ou actividades perigosas são seguramente bem-vindas e úteis, é certo também que reduzir a zero as ignições é uma utopia que não sobrevive a uma análise séria. Não só porque sempre haverá pirómanos ocasionais ou acidentes, mas sobretudo porque, com as condições propícias, qualquer faísca basta para lançar o desastre. Para já, a principal hipótese analisada na Bélgica é a de que o fogo terá tido origem no manuseio de uma máquina agrícola. O incêndio do Piódão terá começado com uma trovoada seca. Reduzir as ignições ajuda, mas não resolve. É na gestão do combustível que devemos, pois, jogar as nossas esperanças.
A verdade é que os esforços de ambientalistas por um planeta melhor, com menor consumo de combustíveis fósseis e menos emissões de CO2, são muito meritórios mas não vão conduzir a uma modificação imediata das condições que propiciam a ocorrência de incêndios rurais. É como ter alguém a morrer de frio e recomendar-lhe que não acenda a lareira para evitar combustão de lenha e assim estabilizar o clima: não vai resolver o problema de quem está a enregelar. Em matéria de incêndios, a regra dos 30-30-30 (temperaturas superiores a 30º, com humidade inferior a 30% e vento superior a 30 km/h) ilustra bem que não está ao nosso alcance evitar as condições atmosféricas propícias ao fogo. Sobra-nos o combustível propriamente dito. Portugal é de longe, no mundo, o maior produtor, quer por km2 quer per capita, de eucaliptos. Esta árvore altamente inflamável não é isenta de responsabilidades nas proporções que os incêndios assumem em Portugal. Tem também um peso económico não despiciendo, e não raras vezes os incêndios consomem outras espécies arbóreas ou simplesmente mato, pelo que os eucaliptos não podem ser o bode expiatório de todos os males que afligem o nosso território rural. Mas quem circula na Beira Interior e vê montes e vales cobertos de eucaliptos ou pinheiros bravos, ou extensões a perder de vista de mato descontrolado, vê que o que está ali não são florestas: são barris de pólvora. Revitalizar o interior e ter quem o habite e explore todo o seu potencial é mais de meio caminho andado para mitigar as catástrofes que ciclicamente reduzem a cinzas parte do nosso país.