
O setor exportador nacional tem resistido de forma assinalável às perturbações internacionais e à incerteza que domina a economia global, conseguindo uma aceleração das vendas ao exterior na primeira metade do ano, e, apesar das dificuldades no panorama externo, as perspetivas para o segundo semestre são contidamente otimistas. Segundo o levantamento da Associação Empresarial de Portugal (AEP), são 30,8% as empresas que antecipam uma segunda metade de 2026 mais favorável do que a primeira – ainda que este número seja contraposto por 28,2% dos empresários que temem mais dificuldades, sublinhando a incerteza que continua a reinar.
Os dados mais recentes do INE são notoriamente positivos e mostram a resistência das empresas nacionais: o segundo trimestre mostra um crescimento das exportações de bens de 10%, acima dos 8,2% do lado das importações, e inverte a queda de 6,5% registada nas vendas ao exterior no arranque do ano, isto em termos homólogos. Excluindo as transações para trabalhos por encomenda, que têm dado um forte impulso à componente externa nacional (sobretudo em setores como o farmacêutico), os resultados são ainda mais positivos: as exportações crescem 10,6%, embora ultrapassadas pelos 12% nas importações.
Os dados são ainda preliminares, mas permitem identificar uma inversão da trajetória das exportações, que vinham registando trimestres consecutivos de leituras homólogas negativas. Do lado da AEP, que vinha alertando para esta dinâmica, há o reconhecimento desta “evolução favorável”, mas continua a ser necessária prudência no atual ambiente.
A estes juntam-se os números do Banco de Portugal (BdP), que incluem serviços. O primeiro semestre registou quase 69 mil milhões de euros em exportações totais, o que fica 5,4% acima do verificado em igual período do ano passado, isto apesar das tempestades que assolaram o país no arranque de 2026 (sobretudo na região Norte e Centro, onde o tecido exportador é mais denso) e da guerra iniciada pelos EUA e Israel contra o Irão e que levou à paralisação do tráfego marítimo no estreito de Ormuz.
Recorde-se que, no Boletim Económico de junho do banco central, ficava já o alerta quanto à perda de quota nacional em mais de metade dos destinos para os quais as empresas portuguesas exportam. No detalhe, 57% dos parceiros comerciais que compram a Portugal, ou 195 dos 341 mercados, registaram um decréscimo na quota portuguesa, com Espanha a encabeçar a perda.
No entanto, já na altura o BdP alertava para o contexto em que estes números se materializaram, salientando o impacto da “instabilidade e profundas alterações que têm afetado o comércio internacional”. Perante tal, a expectativa era já de uma recuperação este ano, sobretudo olhando para os números dos primeiros meses deste ano, ressalvou então o governador Álvaro Santos Pereira.
“Trata-se de uma evolução favorável, mas que deve ser acompanhada com prudência, tendo em conta a incerteza externa e a necessidade de confirmar se este ritmo se mantém nos próximos trimestres”, resume Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP. “Essa prudência é também visível junto das empresas”, continua, falando numa “preocupação generalizada quanto à incerteza que assola o comércio internacional” patente nos contactos recorrentes que têm com os seus associados.
Prudência é necessária
À cabeça, setores como o químico ou o do papel têm tido evoluções negativas este ano, pesando no comportamento global do segmento exportador nacional ao recuarem 33,5% e 4,8%, respetivamente, no primeiro semestre. No entanto, estes resultados são fortemente influenciados por efeitos base decorrentes de um ano de 2025 forte e acima do expectável destes ramos de atividade, o que ajuda a explicar a performance homóloga negativa na primeira metade deste ano.
Ao JE, Joaquim Cunha, diretor executivo do Health Cluster Portugal (HCP), explicava em julho que, após o melhor ano de sempre das exportações da fileira da saúde em 2025, este ano dificilmente conseguirá voltar a quebrar recordes após o recuo no primeiro semestre. Mas esta evolução tem de ser enquadrada: primeiro, nas perturbações que dominaram a economia global este ano; e, segundo, num novo paradigma em que o setor se vê, em que os trabalhos por encomenda ganharam uma relevância considerável.
“A descida é sobretudo em algo que começou a aparecer nos últimos anos e que, no meu entender, é um sinal positivo – o nosso ecossistema passou a estar na rede mundial e há produtos que passam por aqui para alguns acabamentos”, explica, algo associado sobretudo “às grandes multinacionais”.
Olhando para o futuro, a palavra de ordem mantém-se: prudência. A expectativa continua a ser de crescimento em termos globais da componente exportadora, mas os empresários dizem-se atentos ao “agravamento da incerteza do contexto internacional, nomeadamente as tensões militares, o aumento do protecionismo, a volatilidade dos preços da energia e das matérias-primas e eventuais disrupções nas cadeias de abastecimento”, aponta Luís Miguel Ribeiro.
“O inquérito realizado pela AEP durante o mês de julho, que auscultou cerca de 400 empresários e gestores, mostra que 30,8% das empresas antecipam um aumento do volume de negócios internacional no segundo semestre de 2026, acima das 25,7% que registaram crescimento no primeiro semestre”, expõe. “Ainda assim, 28,2% continuam a prever uma redução da atividade externa, o que traduz bem o grau de incerteza que permanece”, completa.
A internacionalização continua a ser o caminho a seguir, mas “com decisões mais seletivas e uma avaliação mais exigente do risco”, ressalva o presidente da AEP, que coloca ainda o foco “em reforçar a sua capacidade de adaptação, diversificar mercados e clientes, reduzir a exposição a determinadas geografias e cadeias de abastecimento e preservar margens num ambiente de custos ainda elevados”.




