O autor escreveu em janeiro de 2025 um artigo no Jornal Económico alertando para a falta de literacia financeira da classe política portuguesa em relação à Segurança Social. O artigo menciona que declarações de deputados como "colocar a raposa no galinheiro" e "tirem as mãos das nossas contribuições" demonstram desconhecimento sobre o sistema.
Um grupo de especialistas liderado pelo Professor Jorge Bravo tem vindo a analisar a sustentabilidade do sistema de pensões em Portugal. O estudo aponta que a Caixa Geral de Aposentações apresenta um défice anual, uma vez que as suas receitas apenas cobrem um terço da despesa com pensões, enquanto a Segurança Social consegue ter excedente graças às contribuições de novos funcionários públicos desde 2006, ao elevado emprego e às transferências do Orçamento do Estado.
Quando os dois sistemas são consolidados, o Tribunal de Contas quantificou em termos atuariais uma lacuna de cerca de 228 mil milhões de euros para cobrir responsabilidades já assumidas, o equivalente a quase um PIB. A Comissão Europeia alerta ainda que o rácio entre a pensão média e o salário médio poderá ser inferior a 38% até 2060, quando atualmente é de 56%.
O autor critica que a classe política tem recorrido a mitos como privatização, cortes nas pensões e "jogar no casino" para desvalorizar análises técnicas e criar medo, evitando assim a tomada de decisões. Sugere que a comissária europeia Maria Luís Albuquerque deveria promover a literacia financeira começando pelos deputados e políticos, abordando conceitos como investimento, capitalização, inflação e sustentabilidade do sistema.

Em janeiro de 2025 escrevi no Jornal Económico o artigo “Hipocrisia na Segurança Social”. Nessa altura alertei que, e passo a citar: “As declarações de vários deputados com expressões como “colocar a raposa no galinheiro”, “tirem as mãos das nossas contribuições”, “querem privatizar a Segurança Social”, expõem a total ausência de literacia financeira de grande parte da nossa classe política.”
A pressão colocada sobre um grupo de especialistas que, de forma isenta, pretendem ajudar a esclarecer os portugueses, continua a ser inaceitável num país que se quer transparente. Ora, o que este grupo, liderado pelo Professor Jorge Bravo, refere é algo muito simples – temos pensões pagas pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) e pela Segurança Social que constituem responsabilidades assumidas por ambos os sistemas perante portugueses que descontaram durante a sua carreira contributiva. Como as receitas da CGA apenas cobrem um terço da sua despesa anual com pensões, o regime como um todo apresenta um défice anual.
A Segurança Social consegue ter um excedente porque, a partir de 2006, os novos funcionários públicos passaram a contribuir para este sistema, porque as contribuições aumentaram com o elevado nível de emprego – por via da imigração e da população portuguesa empregada – e ainda pelas transferências anuais do Orçamento do Estado.
O estudo sugere, e muito bem, analisar as pensões como um todo porque estamos a falar da mesma natureza de responsabilidades, e quando os dois sistemas são consolidados estamos perante um défice. O Tribunal de Contas já o tinha quantificado em termos atuariais – faltam cerca de 228 mil milhões de euros para cobrir as responsabilidades já assumidas – ou seja, quase um PIB, o equivalente a tudo o que o país produz num ano!
Caiu o Carmo e a Trindade no meio político, tal parece ter sido a surpresa de um excedente ter-se transformado num défice. Ora esta pode ser a maior prova de que a classe política não está preparada para lidar com números e nem quer que os portugueses o estejam.
Um assunto tão importante para o futuro – principalmente dos jovens que continuam a escolher Portugal para trabalhar – é minado. Desde mitos de privatização a cortes nas pensões e ao “jogar no casino”, tudo foi utilizado para desvalorizar, menosprezar um trabalho único e criar medo na sociedade.
Com este medo, atinge-se o objetivo que é afastar a tomada de qualquer decisão, até porque ninguém quer ficar conotado com a realidade – o sistema atual não é sustentável a longo prazo! Não se discutiu sequer como aumentar a rentabilidade dos atuais investimentos, a sustentabilidade do pagamento das pensões, o problema demográfico em mãos, ou o forte impacto da Inteligência Artificial no sistema que iremos sentir ainda nesta década. Já a Comissão Europeia alerta que o rácio entre a pensão média e o salário médio da economia irá ser inferior a 38% até 2060, quando hoje é de 56%! Não deixa de ser irónico não se querer debater algo tão sério.
Talvez a comissária europeia Maria Luís Albuquerque, nas iniciativas de promoção da literacia financeira que apoia, devesse começar pelos deputados com assento na Assembleia da República e políticos com responsabilidades na gestão dos nossos impostos. Conceitos como investimento em mercados financeiros, capitalização, inflação e desvalorização do património, ou perda de poder de compra, consumir menos hoje para poder ter mais amanhã, entre outros deveriam fazer parte do manual dos atores políticos. Até lá o trabalho da Comissária é inglório.