
A Mensagem de Lisboa foi fundada em 2021, tínhamos, a Catarina Carvalho e eu, saído do Diário de Notícias. Fizemos um concurso, aberto aos 50 melhores currículos apresentados – escrita viva e coloquial, olhar curioso e amor a Lisboa. Ficaram dez candidatos para a prova final.
Gastámos todo o investimento inicial para preparar esse exame. Embarcámos para Montgomery, Alabama, Estados Unidos. Para a maioria era a primeira vez na América, um encantamento. Lá chegados, todos fizemos uma coisa incrível: uma viagem ao passado.
O facto é que no dia 5 de dezembro de 1955, entrámos para um autocarro amarelo-torrado e branco, da linha urbana de Montgomery. Íamos todos maravilhados com paisagens e roupas com que nunca nos tínhamos cruzado ao vivo e, eu, porque mais velho, dando conta do anúncio ao Marlboro Man, um cowboy, um laço e um maço de tabaco. E também da campanha do novo Chrysler e os seus rabos de peixe. Entretanto, a Catarina Carvalho, que é americana, preveniu: “Atenção aos pormenores.” Bem-vindos a 1955!
Na paragem da Avenida Cleveland, entrou um homem. O passageiro foi avançando pelas cadeiras já ocupadas e parou frente a quatro passageiros já sentados e o primeiro friso a dar para mais lugares vazios, ao fundo.
O autocarro continuava parado e o condutor virou a cabeça e deu uma ordem: que os quatro fossem para o fundo. Três homens levantaram-se e foram. Uma mulher recusou. Saímos ainda na Avenida Cleveland que hoje se chama Rosa Parks Avenue.

A viagem ao tempo acabou e voltámos para o hotel para fazer o teste final. Os nossos rapazes e raparigas estavam atónitos, indignados. A Catarina Reis chorava. Mas um dos candidatos, dos mais brilhantes, aliás, estava impressionado sobretudo com a técnica daquela viagem no tempo. Como era possível ir ao passado e regressar? Quanto custava aquilo? “Isto tem a ver com o Elon Musk?” – disse, esse jornalista atento, nesse ano, Musk seria a figura do Ano para a revista Time.
Com exceção do espertinho que, aliás, foi o único chumbado, todos passaram no exame e foi com essa equipa que a Mensagem começou a trabalhar – com a Catarina Reis como chefe, naturalmente.
Isto para lembrar o que nos move. Logo no ano seguinte, 2022, as jornalistas Catarina Reis, à escrita, e Inês Leote, à fotografia, foram desencantar um português, que nasceu numa maternidade lisboeta, Dona Estefânia, viveu sempre em Lisboa, teve escolas que lhe abriram sempre as portas, calcorreou as nossas calçadas e aprendeu com os nossos encolher de ombros e viveu com eles, um dia descobriu que o pai, angolano e mãe cabo-verdiana, se esqueceram de lhe dar os documentos que eram os dele, português, pois então…
Espera aí. Pois então, como?
E ele respondeu: “Li o Capitães da Areia, do Jorge Amado e percebi que aquilo era eu.”
Se me dão licença, nunca ouvi melhor resposta para se confirmar português. Se eu fosse polícia, pedia documentos, como sou jornalista, pergunto pela vida aos mais novos: “Pirulito, Pedro Bala, ou João Grande, quem vais ser tu?”.
Ao nosso lisboeta à procura de papelada, lisboeta à quinta casa, o nosso rapaz, já adulto, perguntado em 2022, pela Inês Leote, “quem és tu?”, respondeu exibindo o seu BI, sorrindo seu orgulho. A Inês é um bocado prudente e fez a foto com o rapaz com algum lusco-fusco. Quem sabe se não há algum canalha em Portugal para desvirtuar aquele gesto raro? – deve ter ela pensado.
Em todo o caso, o nosso rapaz era raro, sim, conhecem muitos que se fotografam com o cartão do cidadão, como quem exibe uma pertença funda? Ou não conhecem muitos mais, para quem ser português lhes saiu na farinha amparo?
Mas fotógrafa Inês Leote tinha alguma razão: se calhar há um canalha em Portugal.
Há dias aconteceu um crime em Albufeira, um bêbado criminoso acelerou de carro numa rua prenhe. Feriu várias pessoas. Oxalá seja condenado e duramente.
Dito isto, que nada tem a ver com o que estou a escrever – exceto a política implícita, um canalha, em Portugal – factos, canalha porque o era e em Portugal, porque foi aí que perpetrou a badalhoquice – foi buscar aquela foto publicada na Mensagem em 2022, e publicou-a, agora, como se fosse a do bêbado criminoso de Albufeira.
Não um acaso, foi de alguém que agiu, assim: vamos lá procurar uma foto de alguém que me ajude a insinuar que os negros portugueses são bêbados e atropelam. Para ele bastou procurar uma foto de um negro com um CC português.
No Alabama, em 1955, negra sentada não dar o lugar a um branco era suficiente prova de crime.
Estou muito contente com o que a Mensagem de Lisboa faz: mostrar que os racistas são burros, são ontem.
E a Mensagem, o que é mais importante também faz isto: vou sair daqui para falar com um compatriota sobre o Capitães da Areia. Nós somos tanto, irmão.
Ferreira Fernandes
Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo. More by Ferreira Fernandes
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