O boicote dos canadenses a Trump já está custando bilhões aos EUAFoto de Christian Bolaños no Pexels
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O boicote dos canadenses a Trump já está custando bilhões aos EUA

Jornal Económico29 de agosto de 2026 às 14:47

Canadenses estão boicotando ativamente os Estados Unidos em resposta à política comercial e às declarações de Donald Trump. O fenômeno se manifesta em várias dimensões: desde a escolha de produtos fabricados no Canadá em detrimento de marcas norte-americanas, até a utilização de aplicativos para identificar a origem dos bens antes de comprá-los. Segundo uma matéria do The Guardian baseada em mais de 3.500 respostas, os consumidores canadenses estão evitando serviços tecnológicos, plataformas de entretenimento, automóveis, bebidas alcoólicas e companhias aéreas dos Estados Unidos, com muitos dispostos a pagar mais e a fazer maiores esforços para não adquirir produtos norte-americanos.

Os dados turísticos confirmam a dimensão do fenômeno. De acordo com o Statistics Canada, as viagens de residentes canadenses aos Estados Unidos caíram 23,5% em 2025, o que representa cerca de 7,1 milhões de viagens a menos do que em 2024. Simultaneamente, as viagens para destinos internacionais fora dos EUA aumentaram 10,2%, enquanto os deslocamentos dentro do próprio Canadá também cresceram. Essa tendência se prolongou em 2026, com fevereiro registrando o 14.º declínio consecutivo em termos homólogos, embora abril tenha mostrado uma leve recuperação de 1,8%.

O movimento de boicote surge num momento em que o governo de Mark Carney está alterando a estratégia econômica do país. A dependência dos Estados Unidos se tornou uma vulnerabilidade evidente, especialmente porque cerca de 90% das exportações canadenses de petróleo têm como destino os Estados Unidos. Ottawa está acelerando planos para encontrar novos mercados e reforçar as ligações à Ásia por meio da expansão da capacidade de exportação na costa oeste. Ottawa respondeu às tarifas americanas de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares de produtos canadenses com contramedidas que abrangem cerca de 700 produtos, entrando em vigor em 8 de setembro.

A grande questão é se o boicote sobreviverá à atual crise política. Os dados sugerem que parte da mudança poderá ser duradoura, já que consumidores que descobriram alternativas canadenses, destinos de férias no próprio país ou opções europeias ou mexicanas podem não voltar aos hábitos anteriores. No entanto, o comportamento não é uniforme: enquanto muitos mantêm o boicote, outros continuam viajando, comprando e mantendo relações comerciais com os Estados Unidos. A fronteira entre os dois países, durante décadas uma das mais movimentadas do mundo ocidental, está passando por uma transformação que vai além da economia e toca questões de identidade econômica.

A relação entre o Canadá e os Estados Unidos está a atravessar uma transformação que não se mede apenas pelas tarifas ou pelas negociações entre os dois governos. Também se sente nos supermercados, nas agências de viagens e nas escolhas quotidianas dos consumidores.

Cada vez mais canadianos estão a procurar alternativas aos produtos e serviços norte-americanos, numa reacção à política comercial e às declarações de Donald Trump. A dimensão do fenómeno é difícil de medir apenas através das vendas, mas há um indicador particularmente claro: os canadianos estão a viajar menos para os Estados Unidos e a escolher outros destinos.

Dados do Statistics Canada mostram que, em 2025, as viagens de residentes canadianos aos Estados Unidos caíram 23,5%, uma redução de cerca de 7,1 milhões de deslocações face a 2024. Ao mesmo tempo, as viagens para destinos internacionais fora dos EUA aumentaram 10,2%, enquanto as deslocações dentro do próprio Canadá também cresceram.

A mudança prolongou-se em 2026. Em Fevereiro, os canadianos fizeram 2 milhões de viagens de regresso dos Estados Unidos, menos 12,5% do que no mesmo mês do ano anterior e a 14.ª queda consecutiva em termos homólogos.

O consumidor transformou-se numa arma comercial

É neste contexto que ganha importância o movimento de boicote aos produtos norte-americanos. O The Guardian, que publicou este sábado uma reportagem baseada em mais de 3.500 respostas de canadianos, encontrou uma alteração significativa nos hábitos de consumo. Há consumidores que procuram deliberadamente produtos fabricados no Canadá, evitam marcas norte-americanas e recorrem a aplicações para identificar a origem dos bens antes de os colocarem no carrinho de compras.

A lista vai muito além da alimentação. Segundo os testemunhos recolhidos pelo jornal britânico, há canadianos a evitar determinados serviços tecnológicos, plataformas de entretenimento, automóveis, bebidas alcoólicas e companhias aéreas dos Estados Unidos.

O turismo é, contudo, um dos sectores onde a mudança pode ser mais facilmente quantificada. Para os Estados Unidos, a perda de milhões de visitantes canadianos representa menos noites em hotéis, menos refeições em restaurantes, menos combustível comprado junto à fronteira e menos dinheiro gasto em comércio e entretenimento.

Um relatório do Statistics Canada conclui que a quebra das viagens para os EUA foi praticamente compensada pelo aumento das viagens domésticas e para destinos internacionais. Ou seja, parte do dinheiro que anteriormente atravessava a fronteira passou a ser gasto no Canadá ou noutros países.

Do “compre canadiano” à diversificação económica

O boicote popular coincide com uma mudança mais profunda na estratégia económica do Governo de Mark Carney. A dependência dos Estados Unidos tornou-se uma vulnerabilidade evidente à medida que a guerra comercial se intensificou. Washington continua a ser o principal mercado externo do Canadá, incluindo para sectores estratégicos como a energia.

A Reuters noticiou esta semana que cerca de 90% das exportações canadianas de petróleo têm como destino os Estados Unidos. A pressão criada pelo conflito comercial está a acelerar os planos de Ottawa para encontrar novos mercados e reforçar as ligações do país à Ásia através da expansão da capacidade de exportação na costa oeste.

É uma mudança que vai muito além do consumidor que escolhe uma cerveja canadiana em vez de uma americana. O Canadá está a começar a questionar uma dependência económica construída durante décadas.

A fatura chega aos dois lados da fronteira

A ironia da guerra comercial é que a interdependência entre as duas economias torna difícil impor custos apenas ao adversário. Esta semana, os Estados Unidos avançaram com uma tarifa de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares de produtos canadianos. Ottawa respondeu com novas tarifas sobre produtos norte-americanos, com as contramedidas a abranger cerca de 700 produtos e a entrar em vigor a 8 de Setembro. O efeito pode chegar directamente aos consumidores.

Empresas americanas dependentes de matérias-primas canadianas podem enfrentar custos mais elevados, enquanto fabricantes canadianos procuram mercados alternativos para reduzir a exposição aos Estados Unidos. A questão é especialmente relevante porque as cadeias de abastecimento dos dois países estão profundamente integradas. Automóveis, energia, metais, produtos agrícolas e bens industriais atravessam a fronteira várias vezes antes de chegarem ao consumidor final. Uma tarifa aplicada num ponto da cadeia pode, por isso, acabar por aumentar os custos do outro lado da fronteira.

Um movimento que pode sobreviver a Trump

A grande incógnita é saber se o boicote desaparecerá quando a actual crise política terminar. Há razões para acreditar que parte da mudança de comportamento poderá ser mais duradoura.

Uma pessoa que tenha encontrado um produto canadiano de que gosta, tenha passado a fazer férias no próprio país ou descoberto um destino europeu ou mexicano em alternativa aos Estados Unidos pode não regressar automaticamente aos hábitos anteriores.

Os dados turísticos sugerem precisamente que alguma dessa procura já está a ser redireccionada. Em 2025, enquanto as viagens aos Estados Unidos diminuíram fortemente, as viagens dos canadianos para outros destinos internacionais aumentaram. Mas há também sinais de que o fenómeno não deve ser interpretado como uma rejeição absoluta dos Estados Unidos.

Em Abril de 2026, por exemplo, as viagens de canadianos aos EUA aumentaram 1,8% em relação ao mesmo mês de 2025, a primeira subida homóloga desde Janeiro de 2025.

Isto significa que o comportamento dos consumidores não é uniforme. Há quem mantenha as viagens, as compras e as relações comerciais com os Estados Unidos, enquanto outros passaram a evitá-las por razões políticas.

Uma fronteira que deixou de ser apenas económica

Durante décadas, a fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos foi uma das mais movimentadas do mundo ocidental e, para milhões de pessoas, atravessá-la era uma rotina.

A actual disputa está a alterar essa normalidade. O que começou com tarifas e ameaças políticas transformou-se numa discussão sobre identidade económica: o que comprar, onde investir, onde passar férias e até que empresas apoiar. O The Guardian encontrou canadianos dispostos a pagar mais e a fazer maiores esforços para evitar produtos norte-americanos.

Ao mesmo tempo, os dados oficiais mostram que a redução das viagens aos Estados Unidos já atingiu uma dimensão de milhões de deslocações. É por isso que o fenómeno merece ser observado além da política.

Donald Trump pode ter iniciado a actual guerra comercial com tarifas. Mas, no Canadá, uma parte dos consumidores respondeu com outra arma: deixar de comprar, viajar e gastar dinheiro nos Estados Unidos. E essa é uma decisão que Washington não consegue alterar através de uma ordem presidencial.

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