Portugal tem uma particularidade televisiva que talvez merecesse estudo académico: há pessoas que deixam a política, mas a política parece recusar-se a deixá-las
Mudam os governos, mudam os ministros, mudam as maiorias, mudam os líderes partidários, mudam os escândalos e até mudam as palavras com que se descrevem as mesmas velhas crises. Só os rostos, esses, parecem possuir uma resistência extraordinária à passagem do tempo.
Basta ligar a televisão.
Lá estão eles.
Alguns já abandonaram há muito os corredores do poder. Outros anunciaram a retirada. Outros ainda trocaram o cargo político pela cadeira mais confortável do comentário televisivo. E há aqueles que parecem ter descoberto a fórmula perfeita para continuar presentes sem voltar a assumir a responsabilidade direta pelas decisões que tantas vezes comentam.
É uma espécie de reforma ativa do protagonismo.
Deixam de governar, mas continuam a explicar como se governa. Deixam de liderar partidos, mas continuam a explicar como os partidos deveriam liderar. Afastam-se das decisões, mas permanecem muito perto dos estúdios.
E, naturalmente, nada disto é ilegal, nem deveria ser.
O direito à opinião não termina com o fim de um mandato. A experiência política pode constituir uma ferramenta valiosa de interpretação da realidade. O problema começa quando a experiência se transforma em monopólio de presença e quando a televisão parece confundir reconhecimento público com indispensabilidade.
Porque uma coisa é conhecer o poder.
Outra é ter sempre alguma coisa nova para dizer sobre ele.
E talvez aqui resida uma das grandes fragilidades do comentário televisivo nacional: a dificuldade em distinguir autoridade de notoriedade.
Um rosto conhecido entra facilmente numa emissão. O público reconhece-o, o apresentador sabe como conduzir a conversa, o comentador conhece os códigos do estúdio e a máquina televisiva respira aliviada. É uma operação de baixo risco. Já se sabe quem é, como pensa, de onde vem e, muitas vezes, até aquilo que vai dizer antes de abrir a boca.
É confortável.
E o conforto é uma das grandes doenças do espaço público.
A televisão parece, por vezes, funcionar sob o princípio de que o espectador tem uma mão permanentemente pousada no comando e está a segundos de fugir para o canal concorrente. Daí a necessidade de nomes conhecidos, de polémicas previsíveis, de conflitos reconhecíveis e de rostos que funcionem como marcas.
Os shares tornam-se, então, uma espécie de divindade editorial.
Tudo se sacrifica perante eles.
A renovação? Talvez amanhã.
Uma nova geração de pensadores? Quando houver tempo.
Uma voz inesperada, sem currículo político televisivo? Pode ser arriscado.
E assim se constrói o paradoxo: para não perder o público, corre-se o risco de oferecer-lhe permanentemente aquilo que já viu.
É como administrar um restaurante convencido de que ninguém quer experimentar outro prato porque o cliente conhece a sopa de sempre.
Mas o público talvez não seja assim tão previsível.
Talvez esteja simplesmente cansado.
Cansado de ouvir as mesmas explicações para problemas diferentes. Cansado das mesmas batalhas travestidas de análise. Cansado de assistir à transformação do comentário político num prolongamento elegante das antigas disputas partidárias.
E talvez exista uma pergunta que as televisões deveriam fazer com alguma coragem: se estes rostos são realmente indispensáveis, por que razão há tão pouca gente nova a conseguir chegar ao mesmo espaço?
A resposta não pode ser apenas a audiência.
Porque a audiência mede atenção; não mede necessariamente qualidade. Mede quantas pessoas ficaram diante do ecrã, não quantas saíram dali mais esclarecidas.
Uma televisão pode conquistar espectadores com uma polémica e perder cidadãos.
Pode ganhar share e perder autoridade.
Pode subir nas audiências e descer na estima.
O problema é que estas perdas não aparecem imediatamente numa tabela estatística.
Há uma erosão mais lenta e mais perigosa: a erosão da confiança.
Quando o espectador percebe que o painel de opinião parece escolhido sempre dentro do mesmo universo, começa a perguntar-se se está perante pluralismo ou apenas perante uma rotação cuidadosamente administrada da mesma elite mediática.
E a pergunta é legítima.
Não porque determinadas figuras não tenham direito a estar na televisão, mas porque outras talvez tenham direito a estar e nunca sejam chamadas.
Portugal tem investigadores brilhantes que raramente entram em horário nobre. Tem professores que conhecem profundamente os problemas do País. Tem empresários e trabalhadores que conhecem a economia para lá das estatísticas. Tem médicos, juristas, cientistas, escritores, engenheiros, economistas, professores, artistas e especialistas capazes de explicar o presente sem precisarem de uma carreira partidária como certificado de entrada.
Tem, sobretudo, uma sociedade muito maior do que os seus estúdios.
O paradoxo está precisamente aí.
A televisão diz procurar o País, mas muitas vezes procura apenas aqueles que já sabe representar o País diante das câmaras.
É uma diferença subtil, mas decisiva.
Porque a realidade não é aquilo que cabe num painel de quatro pessoas.
E o pensamento nacional não pode ser reduzido a uma mesa de comentadores onde todos conhecem os mesmos protagonistas, frequentaram os mesmos círculos e discutem, com admirável convicção, os mesmos assuntos.
Talvez seja necessário abrir as janelas.
Não para expulsar os rostos antigos, mas para permitir que entrem outros.
A renovação não exige censura. Exige coragem.
Não exige silenciamento. Exige pluralidade.
Não exige retirar espaço a ninguém. Exige criar espaço para mais gente.
É nesse ponto que a televisão deve escolher entre ser apenas uma máquina de audiência ou assumir também uma função de serviço à sociedade.
Porque a televisão possui um poder extraordinário: decide quem entra na sala de estar dos portugueses.
E quem entra repetidamente nessa sala ganha uma espécie de autoridade doméstica. Torna-se familiar. O familiar parece credível. O credível passa a parecer indispensável. E o indispensável regressa na emissão seguinte.
Assim nasce o círculo perfeito.
O rosto conhecido garante audiência porque é conhecido; torna-se ainda mais conhecido porque garante audiência; e, por ser cada vez mais conhecido, passa a parecer impossível substituí-lo.
É assim que se fabricam os rostos eternos.
Não necessariamente por conspiração.
Às vezes, basta hábito.
E o hábito, no jornalismo, pode ser uma forma particularmente sofisticada de preguiça.
Talvez esteja na altura de quebrar esse círculo.
Não por uma questão de idade, de ideologia ou de preferência política. Mas por uma questão de inteligência editorial.
Uma sociedade que muda precisa de uma televisão capaz de mudar com ela.
Se as televisões portuguesas continuarem a acreditar que o público só fica se reconhecer os mesmos rostos, talvez descubram tarde demais que o público não mudou de canal por causa da ausência de uma determinada figura.
Mudou porque deixou de encontrar novidade.
E talvez a mais dura ironia seja esta: a televisão que tem medo de perder audiência pode acabar por perder aquilo que nenhuma tabela de share consegue recuperar — a curiosidade do espectador.
O ecrã não precisa de mais donos.
Precisa de mais horizontes.
E Portugal, felizmente, é muito maior do que os rostos que a televisão insiste em repetir.
Fernando Jesus Pires
Jornalista CP-Nacional, CP-Internacional, Diretor do jornal independente OREGIÕES
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