Os mais recentes indicadores divulgados pela Fundação Belmiro de Azevedo (FBA) oferecem um retrato simultaneamente encorajador e preocupante da educação em Portugal. À primeira vista, os números parecem falar apenas de acesso, desempenho ou retenção. Contudo, quando observados à luz da evidência científica, revelam também um tema que permanece demasiadas vezes à margem do debate educativo: a saúde mental.
O primeiro indicador mostra que a taxa real de pré-escolarização aumentou de 86,9% em 2013/14 para 94,5% em 2023/24. Trata-se de um progresso notável, já que a educação pré-escolar promove o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, constituindo um importante fator protetor da saúde mental ao longo da vida. No entanto, as assimetrias regionais, particularmente na Grande Lisboa e na Península de Setúbal, lembram-nos que a igualdade de oportunidades continua por concretizar. Quando o acesso é desigual, também o desenvolvimento infantil tende a sê-lo.
O segundo indicador é talvez o mais preocupante. No 9.º ano, a percentagem de alunos com bom desempenho nas provas finais de Matemática caiu de cerca de 37% antes da pandemia para, aproximadamente, 22%, sendo que mais de metade obteve classificação negativa. Estes resultados não refletem apenas dificuldades de aprendizagem. Traduzem igualmente o impacto de anos marcados pela pandemia, pela ansiedade, pelo isolamento, pela redução da motivação e pelo aumento do sofrimento psicológico entre crianças e adolescentes. O insucesso escolar e a saúde mental alimentam-se mutuamente: dificuldades emocionais comprometem a aprendizagem e o fracasso académico agrava sentimentos de baixa autoestima, desmotivação e desesperança.
Também no ensino secundário persistem sinais preocupantes. Apesar da ligeira redução da taxa de retenção e desistência, de 9,8% para 9,6%, quase um em cada dez alunos continua a reprovar ou abandonar este ciclo de ensino, atingindo os 12,3% no 12.º ano. Num período marcado pela pressão dos exames, pela escolha do futuro académico e profissional e pela construção da identidade, estes números representam muito mais do que estatísticas administrativas. Representam jovens expostos a elevados níveis de stress, ansiedade e exaustão emocional, fatores que podem comprometer o seu percurso de vida.
Por fim, o facto de, pela primeira vez em dez anos, existirem menos candidatos ao ensino superior do que vagas disponíveis deve levar-nos a questionar não apenas os fatores económicos ou demográficos, mas também os psicológicos. A insegurança relativamente ao futuro, o receio do insucesso, a falta de expectativas e o desgaste emocional podem contribuir para que muitos jovens adiem ou abandonem o projeto de prosseguir estudos.
A educação e a saúde mental não podem continuar a ser discutidas separadamente. Uma escola que promove bem-estar emocional melhora a aprendizagem; uma escola focada exclusivamente em resultados dificilmente conseguirá formar cidadãos resilientes, autónomos e saudáveis. Investir em psicólogos, programas de promoção da saúde mental, literacia emocional, prevenção do bullying e apoio às famílias não constitui um custo adicional do sistema educativo. É, antes, um investimento na qualidade da aprendizagem, na redução do abandono escolar e, sobretudo, no futuro do país! Os números da FBA não são apenas indicadores educativos… São também indicadores do estado emocional de uma geração que merece ser ouvida, compreendida e apoiada. Porque não existe sucesso escolar sustentável sem saúde mental.
(*) Doutorando na FMUC
