Fliparacatu: Immaginar altri futuri è un modo per guardare il presente, secondo Paulliny Tort e Sérgio AbranchesFoto di Ann H su Pexels
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Fliparacatu: Immaginar altri futuri è un modo per guardare il presente, secondo Paulliny Tort e Sérgio Abranches

Agência Incomparáveis29 agosto 2026 alle ore 23:15

Durante la tavola rotonda "Fiction speculativa tra il passato e il futuro" alla 4ª Fliparacatu, le autrici Paulliny Tort e Sérgio Abranches hanno discusso di come l'immaginazione letteraria serva come strumento per comprendere il presente, e non solo come fuga dalla realtà. A partire dalle loro opere — "Os Imortais" e "A Franja do Fim do Mundo" — gli scrittori hanno esplorato temi come la crisi climatica, le disuguaglianze sociali e la critica al modello neoliberale che riduce l'esistenza umana alla produttività. Entrambi hanno sostenuto che immaginar futuri, sia tornando alla preistoria che proiettando distopie, è un modo per esercitare l'autonomia e rendere visibili questioni che il presente insiste nel nascondere, affermando che la letteratura funziona come spazio di prova per pensare collettivamente che tipo di società si intende costruire.

Em um mundo atravessado pelo excesso de informação, pela crise climática e por um futuro cada vez mais difícil de prever, imaginar pode ser mais do que uma forma de escapar da realidade. Pode ser uma maneira de enxergá-la com mais clareza. Foi a partir dessa perspectiva que Paulliny Tort e Sérgio Abranches discutiram a força da ficção durante a mesa “Ficção especulativa entre o passado e o futuro”, realizada neste sábado (29), no 4º Fliparacatu.

A conversa, mediada pela escritora Calila das Mercês, partiu de uma provocação sobre a necessidade de “fugir” para imaginar. Para Paulliny, essa fuga não significa abandonar o mundo, mas mudar a chave de leitura da realidade. Leitora de ficção desde a infância, a autora de Os Imortais vê na literatura um espaço cada vez mais necessário diante do fluxo incessante de informações, opiniões e acontecimentos que atravessam a vida contemporânea.

Abranches também recusou a ideia de imaginação como evasão. Para o escritor, pensar o futuro significa justamente ampliar a perspectiva sobre um presente que, embora breve, carrega uma realidade complexa e dolorosa. “O futuro só existe quando ele se torna presente”, comentou o autor.

A ideia ganhou ainda mais forma quando Calila trouxe para a conversa o pensamento de Milton Santos, um dos patronos desta edição do Fliparacatu. Se o mundo não pode ser compreendido a partir de um único ponto de vista, imaginar outros mundos também significa reconhecer que existem diferentes maneiras de experimentar e interpretar a realidade. Para a escritora, especular é uma forma de exercer autonomia e liberdade — e também de tornar visíveis questões que o presente insiste em esconder.

Imaginar também é olhar para o presente

É justamente nesse território entre o que existe e o que ainda pode existir que se encontram os livros dos dois autores.

Em A Franja do Fim do Mundo, Abranches projeta uma sociedade marcada pelo colapso climático, pela desigualdade e pela concentração de poder. A cidade imaginada no romance está cercada por desertos e ruínas e abriga uma elite de super-ricos protegida por um bunker, enquanto o restante da humanidade tenta sobreviver às consequências de um mundo que chegou ao limite.

A distopia, no entanto, não é construída apenas sobre a destruição. Abranches a define como uma narrativa que ainda guarda uma “chama de esperança”. Ao falar sobre o romance, aproximou o cenário imaginado na obra de acontecimentos do presente, como a guerra em Gaza e a violência produzida por estruturas de poder que transformam determinados grupos em vidas mais sacrificáveis do que outras.

Para o escritor, imaginar o futuro também deveria ser uma tarefa política. “O Brasil precisa aprender a pensar no futuro”, afirmou, relacionando a crise climática à dificuldade de construir projetos coletivos de longo prazo. A questão, para ele, não é apenas sobreviver ao que está por vir, mas decidir que tipo de sociedade se pretende construir.

Paulliny chega a esse futuro por outro caminho. Em Os Imortais, seu romance ambientado na pré-história, a autora imagina a vida de um grupo de neandertais e seus encontros com outras espécies humanas. Ao voltar milhares de anos no tempo, a escritora acaba também encontrando questões profundamente atuais: a sobrevivência, a convivência, a perda e a maneira como os seres humanos organizam suas vidas.

O livro levou cinco anos para ser escrito. Durante esse período, Paulliny perdeu o irmão — uma experiência que transformou também sua relação com a própria narrativa. O romance, que já investigava a morte e a permanência, passou a ser também um espaço para elaborar o luto. A literatura, nesse caso, não ofereceu uma resposta para a perda, mas tempo para atravessá-la.

A construção de um amanhã

A autora relacionou essa experiência a uma crítica mais ampla à velocidade da vida contemporânea. Em meio a modelos de trabalho que transformam o tempo em produtividade, famílias que quase não conseguem se encontrar e deslocamentos cotidianos que consomem horas de cada dia, Paulliny questionou o que resta quando viver passa a ser apenas cumprir tarefas.

Foto: @alnereis

A observação encontrou eco nas preocupações de Abranches. Os dois escritores, embora partam de épocas e universos ficcionais muito diferentes, se aproximaram ao questionar estruturas neoliberais que reduzem a existência humana à produtividade, à acumulação e à sobrevivência. A crise climática aparece, nesse sentido, não apenas como um problema ambiental, mas como consequência de escolhas coletivas e de um modelo de sociedade que continua avançando mesmo quando já conhece seus limites.

É aí que a ficção especulativa deixa de ser apenas uma literatura sobre o que ainda não aconteceu. Ao imaginar mundos em ruínas, sociedades futuras ou grupos humanos de milhares de anos atrás, os escritores acabam devolvendo ao leitor uma pergunta bastante presente: como chegamos até aqui — e o que estamos fazendo com o mundo que ainda temos?

Paulliny demonstrou pouco otimismo diante das escolhas que a humanidade continua fazendo mesmo conhecendo suas consequências. Para ela, há uma contradição difícil de ignorar: sabemos dos impactos da crise climática, reconhecemos seus riscos, mas seguimos reproduzindo comportamentos que os aprofundam. Ao mesmo tempo, lembrou que nem todos têm as mesmas condições de escolha — há quem esteja tão submetido às urgências da sobrevivência que sequer consiga se dedicar a pensar sobre o futuro.

Abranches ampliou a questão para a necessidade de construir um amanhã que não seja pensado apenas para alguns. Machismo, sexismo e racismo, afirmou, também precisam ser enfrentados quando se fala em futuro. Não se trata necessariamente de apagar tudo o que veio antes e começar do zero, mas de aprender com o passado para construir outras formas de convivência.

No fim, a literatura aparece justamente como esse espaço de ensaio. Um lugar onde é possível voltar à pré-história, avançar até um futuro pós-colapso, inventar sociedades diferentes e, nesse movimento, reconhecer problemas que já estão diante de nós. ■

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