Il primo ministro portoghese, Luís Montenegro, è stato da quando ha assunto l'incarico uno dei politici più critici nei confronti del lavoro degli organi di comunicazione sociale. Durante la campagna elettorale del 2025, ha accusato i media di promuovere disinformazione e manipolazione dei fatti nel contesto delle notizie sulla Spinumviva. Ad agosto, alla Festa do Pontal, ha nuovamente criticato quello che ha definito una "sorta di censura moderna" e l'attenzione dedicata a polemiche e piccoli incidenti a scapito di ciò che considera più rilevante. I giornalisti contattati dall'ECO/+M hanno scelto di non commentare le parole del primo ministro.
L'articolo contrasta le critiche di Montenegro ai media con la pubblicazione ufficiale del PSD, il partito che guida, il Povo Livre. Si tratta di una pubblicazione dottrinale, registrata presso l'Autorità di Regolamentazione per la Comunicazione

Luís Montenegro tem sido, desde que assumiu as funções de primeiro-ministro, um dos políticos mais críticos da forma como os órgãos de comunicação social fazem o seu trabalho. Em outubro de 2024, na apresentação do Plano de Ação Para a Comunicação Social, defendeu um jornalismo “mais tranquilo, menos ofegante” e criticou o que chamou de “perguntas sopradas” aos jornalistas.
Durante a campanha eleitoral de 2025, no contexto das notícias sobre a Spinumviva, acusou os órgãos de comunicação social de promover “desinformação e manipulação de factos”. E, este mês, na Festa do Pontal, faz esta sexta-feira duas semanas, voltou ao tema, criticando aquilo que classificou como uma “espécie de censura moderna” e a atenção dada às polémicas, aos pequenos incidentes e aos episódios, em detrimento do que considera ser mais relevante.
Os jornalistas contactados pelo ECO/+M para este artigo optaram por não comentar as palavras do primeiro-ministro, mas dois responsáveis de agências de comunicação não se furtam à análise, em muito coincidente.
Se o primeiro-ministro acha que a ação do Governo deveria ter mais impacto positivo nos media, então algo está a falhar na forma como está a comunicar. E também na capacidade de gestão das sucessivas crises comunicacionais que têm atingido este Executivo.
Rodrigo Viana de Freitas
CEO da Central de Informação
Ora, “todos sabemos que o papel dos media não é valorizar a ação do Governo, mas sim escrutiná-la“, começa por referir Rodrigo Viana de Feitas, CEO da Central de Informação. Ao criticar a comunicação social, defende o consultor, Luís Montenegro não está mais do que “a assumir a fragilidade e ineficiência da sua estratégia de comunicação”.
“Se o primeiro-ministro acha que a ação do Governo deveria ter mais impacto positivo nos media, então algo está a falhar na forma como está a comunicar. E também na capacidade de gestão das sucessivas crises comunicacionais que têm atingido este Executivo”, prossegue o consultor.
Já na opinião de João Tocha, Luís Montenegro, como qualquer outro dirigente partidário ou governante, tem toda a legitimidade para tecer críticas aos órgãos de comunicação social. “São uma tática da agenda política procurar condicionar e influenciar a agenda mediática”, concretiza o especialista em comunicação estratégica e marketing político, na opinião de quem, salvo em casos de erros graves e atentados à verdade cometidos por um jornalista, que requerem desmentidos, “a tática não produz nenhum ganho de simpatia e eleitoral”.
“É mais um tópico de discurso para aquecer as hostes. Neste caso, Montenegro escolheu o ângulo errado, pois não tem funções de direção e edição editorial para escolher o que devem tratar os jornalistas, que temas têm valor notícia e qual a relevância que têm”, resume o CEO da First Five Consulting (F5C).
No extremo dos órgãos de comunicação social que não parecem agradar aos primeiro-ministro, surge um título no qual Montenegro é a figura central. Não se trata de um jornal informativo, mas do Povo Livre, a publicação oficial do PSD, partido de que é presidente. Ou seja, apesar de registado na ERC e de ter diretor – Emília Santos – , trata-se, como prevê a Lei de Imprensa, de uma publicação doutrinária. É então, por definição, um título que pelo conteúdo ou perspetiva de abordagem, visa predominantemente divulgar qualquer ideologia ou credo religioso.
As capas do jornal não deixam margem para dúvidas. Desde que tomou posse pela segunda vez, em junho de 2025, o jornal teve 55 edições. Dessas, 52 são protagonizadas por Luís Montenegro.
O jornal existe desde 1974, nasceu pouco depois da fundação do então PPD e acompanhou, ao longo de mais de meio século, a história do partido, os seus congressos, governos, oposições e líderes. É agora uma publicação semanal digital – deixou o papel em 2015 – e assume a sua natureza, é um órgão do PSD e acompanha sobretudo quem, em cada momento, está no centro do partido. Hoje, esse nome é Luís Montenegro.
As capas do jornal não deixam margem para dúvidas. Desde que tomou posse pela segunda vez, em junho de 2025, o jornal teve 55 edições. Dessas, 52 são protagonizadas por Luís Montenegro. As exceções, que confirmam a regra que estatisticamente se cifra nos 94,5%, deram-se a 13 de maio – “Porto e Lisboa vão receber 400 agentes da PSP” –, a 22 de outubro, semana da morte de Francisco Pinto Balsemão, fundador do partido, e a 15 de outubro, no rescaldo das autárquicas.
“É uma escolha, como qualquer outra. Presumo que o Povo Livre seja dirigido e produzido por pessoas que dominam a comunicação, a comunicação política e conheçam o comportamento dos seus leitores”, comenta João Tocha. O jornal é dirigido, desde julho de 2022, por Emília Santos, ex-deputada e vice-presidente da Câmara Municipal da Maia, que, contactada pelo ECO/+M para este artigo, optou por não fazer comentários.
A imprensa doutrinária não tem de obedecer a uma série de regras que regem os media informativos. “A objetividade, o contraditório, a verificação das fontes e o valor-notícia na imprensa doutrinária são substituídos pelo valor político e eleitoral da matéria difundida”, concretiza João Tocha. O consultor entende assim que o Povo Livre, como qualquer outro órgão partidário e doutrinário, faz sentido, na medida em que permite às direções dos partidos escolherem os temas, produzirem e aprovarem os conteúdos sem a intermediação e os critérios jornalísticos.
“A eficácia manifesta-se num objetivo tradicional de manter e fidelizar a bolha dos militantes e convertidos com o catecismo favorável ao seu proprietário”, diz. No entanto, alerta, “a eficácia eleitoral só acontece de forma ampla se os conteúdos do Povo Livre forem adaptados às especificidades das diversas plataformas existentes e replicados por forma a captarem a atenção de cidadãos e potenciais eleitores fora da bolha laranja”.
“Desconfio muito da sua eficácia eleitoral. Funciona como uma publicação de qualquer empresa ou organização: para informar públicos internos, alinhar mensagens e dar palco a protagonistas. Não pode ser levado demasiado a sério”, acrescenta Rodrigo Viana de Freitas, que esporadicamente tem vindo a trabalhar com o PS.
Para mim não há interesse jornalístico na equação. Utilizam-se técnicas de redação jornalística (e agora de redação multiplataforma digital) para construir os conteúdos dos media partidários. (…) Definam um estatuto para estes instrumentos de comunicação política dos partidos e acabem com a confusão entre jornalismo e imprensa doutrinária.
E é possível, num órgão desta natureza, algum equilíbrio ou interesse jornalístico? “A função de órgão oficial de um partido define à partida os princípios a que obedece: o interesse partidário da organização política, dos seus dirigentes e militantes e a possibilidade de contribuir para a manutenção ou conquista do poder. É uma publicação doutrinária. Para mim não há interesse jornalístico na equação. Utilizam-se técnicas de redação jornalística (e agora de redação multiplataforma digital) para construir os conteúdos dos media partidários”, atira o especialista.
João Tocha defende, aliás, que o estatuto dos jornais partidários devia ser melhor clarificado, “a bem da separação de águas entre atividade jornalística e difusão de propaganda, doutrina e discursos políticos”.
Aqui, o expoente máximo é a Folha Nacional, o jornal do partido de André Ventura. “O Chega há vários anos que utiliza a Folha Nacional de forma muito eficaz e a distribui gratuitamente, fora da bolha. A maioria dos seus conteúdos levam o selo de autenticidade da “Agência Lusa”, podendo o Chega escolher os títulos, as legendas e fotos que politicamente sejam mais favoráveis aos objetivos políticos e eleitorais do partido”, recorda.
“Definam um estatuto para estes instrumentos de comunicação política dos partidos e acabem com a confusão entre jornalismo e imprensa doutrinária”, remata.
Voltando ao Povo Livre, Rodrigo Viana de Freitas lembra que exigir que o jornal fosse independente do PSD seria uma contradição, mas defende que “pode ser mais interessante, apesar de ser partidário”, e que tal abriria o jornal a novos públicos. Obrigaria, no entanto, “a ser mais informativo e menos elogioso”.
Informação sobre decisões políticas que não encontramos facilmente nos media, entrevistas de fundo, reportagens sobre o trabalho de deputados e autarcas, explicação de políticas públicas e diversidade de protagonistas são algumas das sugestões deixadas pelo CEO da Central de Informação. “A verdade é que a tentação de mostrar trabalho normalmente prevalece e o interesse ‘jornalístico’ acaba por se perder. É este o caso”, remata.