
“Uma história bonita e superiormente rentável”. Foi desta forma que o então CEO Fernando Ulrich descreveu, em 2017, a presença do BPI em Angola. Mais de três décadas depois e muitos milhões de lucro, o BPI está prestes a abandonar o mercado angolano. Uma saída pressionada pela exigência imposta pelo Banco Central Europeu, no final de 2014, para o banco português reduzir a exposição a Angola. Começou assim a desenhar-se um percurso que culminou com o anúncio, esta semana, da venda dos 33,35% que detinha no capital do BFA ao Grupo Carrinho.
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A origem da unidade angolana remonta a 1993 quando oo Banco de Fomento e Exterior (BFE) abre uma sucursal no país. Três anos depois, o BPI adquire o BFE, abrindo a porta ao mercado angolano e dando início a uma forte expansão. Em 2002, a sucursal é transformada no Banco de Fomento Angola (BFA), inicialmente detido a 100% pelo BPI.
Ao longo dos anos seguintes, a unidade contribuiu para engordar os lucros do banco português. Conforme detalhou Fernando Ulrich, em janeiro de 2012, um investimento inicial de três milhões de euros multiplicou-se e gerou um retorno de mais de 900 milhões.
Além dos dividendos, este valor inclui um encaixe 366 milhões de euros realizado com a venda de 49,9% do capital do BFA à Unitel, em 2008; outros 66 milhões gerados pela repatriação de lucros na transformação da sucursal; e 28 milhões arrecadados com a venda adicional de 2% à Unitel em janeiro de 2017, momento que o banco português perdeu o controlo do BFA, passando a deter menos de 50% do capital.
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Desde então já entraram mais dividendos. Segundo os cálculos do ECO, entre 2014 e 2018, o BPI recebeu 370 milhões através da apropriação dos resultados gerados pelo BFA em função da percentagem de capital detida no banco angolano – era de 50,1% até vender 2% à Unitel em 2017.
A partir de 2019, o BPI passou a assumir a participação de 48,1% no BFA como um investimento meramente financeiro e a contabilizar nos seus resultados os dividendos recebidos de Angola, que ascendem a 394 milhões de euros até 2025, incluindo cerca de 43 milhões de euros relativos ao exercício desse ano, os últimos que o BPI vai ganhar em Angola.
Segundo a informação divulgada, o BFA decidiu, em 30 de março de 2026, distribuir 60% do resultado de 2025, num dividendo total de 138,37 mil milhões de kwanzas, pago em 13 de abril deste ano. A participação de 33,35% dá direito a cerca de 46,15 mil milhões de kwanzas, que correspondem aproximadamente a 43 milhões de euros.
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Com a entrada em bolsa no ano passado, na qual o banco angolano dispersou cerca de 30% do capital, o BPI encaixou mais de 100 milhões de euros, reduzindo a sua posição para 33,35%. Com a saída de Angola, através da alienação da sua posição ao Grupo Carrinho, o BPI vai ganhar mais de 388,5 milhões de euros.
Segundo a informação avançada em comunicado esta quinta-feira, 3 de setembro, o preço acordado corresponde à soma de uma tranche fixa de 345 milhões de euros, devida, uma vez verificadas as condições suspensivas, na data da transação; uma tranche fixa diferida, de cerca de 43,5 milhões de euros; e uma tranche variável diferida, correspondente a metade do dividendo do BFA de 2026 que seja atribuído a estas ações, sendo que as tranches diferidas serão devidas em maio de 2027.
Números que mostram a dimensão do negócio angolano para o balanço do BPI e que justificam a descrição dos vários líderes do banco sobre esta unidade. Palavras como “um ativo absolutamente extraordinário”, de Ulrich, ou um “banco extremamente rentável independentemente da situação de Angola“, na descrição de Jordi Gual, então presidente do CaixaBank, este foi um investimento que custou ao BPI ao desfazer-se. O que apenas aconteceu por força de uma obrigação regulatória.
BCE forçou saída
16 de Dezembro de 2014. É esta a data na qual Angola passou a ser um problema para o BPI. Como Angola ficou de fora dos países a que Bruxelas reconheceu supervisão bancária equivalente à europeia, o banco ficou com excesso de concentração de riscos a este país. Por decisão do BCE, o BPI ficou obrigado a reduzir a exposição a Angola. Nos anos seguintes, a instituição negociou várias opções para aceder às exigências do supervisor.
Pelo meio, o banco mudou de mãos, passando a ser controlado pelos espanhóis do CaixaBank, no seguimento da oferta pública de aquisição (OPA) lançada pelo banco, que estava há vários anos no capital. Após um longo braço de ferro com os catalães, Isabel dos Santos, que detinha 18,6% do capital do banco, vendeu a sua posição na OPA de 2017.
Quanto ao BFA foram avançadas várias possibilidades, desde a solução de cisão proposta pela gestão de Fernando Ulrich, à dispersão em bolsa ou à venda da posição. Em 2023, o banco chegou a ponderar avançar com a venda da participação de 48,1%, tendo comunicado que havia dois compradores que estavam na corrida: o Grupo Carrinho e a Gemcorp. O negócio não chegou a avançar, com o banco português a justificar a suspensão com as condições de mercado, nomeadamente a depreciação do kwanza, a divisa angolana.
Dois anos depois, a solução passou pelo mercado, permitindo a entrada do Grupo Carrinho, que passou a ser acionista de referência. Um ano depois, o gigante do agroalimentar angolano está prestes a tornar-se o nodo dono do BFA.




