La Bande du Rolex : quand la victime cesse de croire que l'État arrivera à temps | Par Henrique Dias FreirePhoto de Harrun Muhammad sur Pexels
PolitiqueFaro

La Bande du Rolex : quand la victime cesse de croire que l'État arrivera à temps | Par Henrique Dias Freire

Postal do Algarve30 août 2026 à 15:15

L'article analyse le cas de la « Bande du Rolex » à Lisbonne, où un vol suivi d'une poursuite s'est terminé par la mort, remettant en question la capacité de l'État portugais à prévenir et à répondre à la criminalité organisée. L'auteur soutient que lorsque les victimes cessent de croire que l'État arrivera à temps, elles sont obligées de prendre des décisions qu'elles ne devraient jamais avoir à prendre. L'analyse souligne que les groupes criminels itinérants agissent rapidement tandis que les institutions répondent comme des processus lents, et que la véritable solution consiste à rendre le crime moins rentable grâce à une prévention efficace et une réponse rapide, et non par des politiques brutales.

Na Avenida de Berlim, uma mota ficou no chão, um homem morreu e um cidadão que acabara de ser ameaçado com armas passou também a ter de explicar o que fez. As primeiras notícias falaram numa perseguição; a vítima sustentou depois que acelerou para fugir. Essa diferença é decisiva para a investigação. Não apaga, porém, a imagem maior: alguém teve de decidir em segundos o que o Estado levará muito mais tempo a reconstruir.

O fracasso não está em investigar a vítima. Está no momento anterior, quando perseguir os assaltantes, ou fugir deles a toda a velocidade, parece a única ação capaz de impedir que desapareçam.

É isto que acontece quando a vítima deixa de acreditar que o Estado chega a tempo.

Nenhum país consegue evitar todos os crimes. A segurança falha quando o sistema transfere para a vítima o risco, o tempo e a decisão.

A falha começa antes de se ouvir a sirene

O assalto terá começado com um falso acidente. Uma mota tocou no BMW para obrigar o condutor a sair. Surgiram uma faca e uma arma de fogo. Foram levados dois relógios Rolex, pulseiras e um fio, num valor próximo de 100 mil euros. Seguiram-se a fuga, a colisão e a morte de um dos suspeitos. O outro homem foi identificado dias depois e admitia-se que pudesse já ter saído de Portugal.

Cada elemento revela uma vantagem do crime: escolhe a vítima, prepara a distração, usa veículos rápidos, ameaça, recolhe e desaparece. O Estado chega depois, recolhe imagens, identifica pessoas, aciona a cooperação internacional e começa a construir prova.

O crime atua como uma unidade. O Estado responde como um processo.

Não se trata de culpar os polícias. Bruno Pereira, subintendente da PSP e presidente do Sindicato Nacional da Polícia, afirmou que estes grupos já eram conhecidos há meses, que a rapidez é decisiva para os identificar e localizar e que as forças estão carentes de recursos. Menos prevenção gera mais investigações; maior pressão reduz a capacidade de chegar a todos os autores.

O Governo reconheceu, em abril, a necessidade de inverter uma tendência de perda de efetivos na PSP. Anunciou mais de mil entradas até ao final de 2026, enquanto cerca de 900 agentes passariam à pré-aposentação. É a confirmação institucional de um problema de recrutamento, retenção e presença policial.

É aqui que o Estado e a segurança estão a falhar: o fenómeno é conhecido, o método repete-se e a mobilidade dos autores é previsível, mas a prevenção e a velocidade da resposta ainda não tornam o risco do crime superior ao benefício esperado.

O crime atravessa fronteiras antes de o processo atravessar secretárias

Grupos itinerantes podem atuar durante semanas e mudar de país quando sentem que estão identificados. O intervalo entre reconhecer um rosto e localizar uma pessoa pode ser a diferença entre uma detenção e uma fronteira atravessada.

As garantias legais são indispensáveis. Mas não exigem instituições lentas, sistemas que não comunicam ou meios que chegam tarde. O Estado de direito não é o direito à demora. É legalidade com eficácia.

A nacionalidade deve ser divulgada quando estiver confirmada e for relevante. Um passaporte ajuda a localizar uma pessoa; não explica uma rede criminosa. Reduzir o debate a estrangeiros e fronteiras dá ao Estado um álibi: deixa-se de perguntar por que razão indivíduos concretos conseguem atuar e desaparecer.

Um país seguro também pode falhar na segurança

Os números não sustentam a ideia de que Portugal se transformou numa selva. O Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 registou uma diminuição de 1,6% na criminalidade violenta e grave e um aumento de 3,1% na criminalidade geral, concluindo que o país permanece globalmente seguro. O roubo representou, contudo, 61,6% da criminalidade violenta e grave participada.

Os dados devem impedir o alarmismo. Não devem impedir a crítica. Uma média nacional pode mostrar um país seguro e esconder uma vulnerabilidade específica. A estatística é um mapa; não é um escudo.

Portugal pode continuar seguro em termos comparativos e responder mal a uma modalidade concreta de crime organizado. Negar a primeira realidade alimenta o pânico. Negar a segunda alimenta a complacência.

O relógio é de luxo; a liberdade não

Na véspera do caso de Lisboa, dois homens de cara tapada assaltaram um turista na Quinta do Lago. Fizeram-se passar por estafetas de comida, apontaram uma arma de fogo, levaram um relógio e fugiram de mota. A Polícia Judiciária procurava saber se existia ligação a outros casos, sem que essa relação estivesse confirmada.

Pode parecer um problema de pessoas ricas. Não é. O relógio pertence à vítima; a arma aparece numa rua de todos. Uma perseguição, um disparo ou uma colisão pode atingir quem não possui relógio algum.

No Algarve, a segurança é um direito quotidiano, não um produto para turistas. É uma condição de liberdade para os residentes.

Aconselhar as pessoas a não exibirem bens, alterarem rotinas e não reagirem pode ser prudente. Como política, é insuficiente. A vítima começa por guardar o relógio. Depois muda o percurso. Depois deixa de frequentar uma rua. Depois aprende a chamar prudência ao medo.

O crime rouba o objeto. A insegurança rouba espaço à vida.

Gangue do Rolex. Crédito: Lusa

A verdadeira dureza é fazer do crime um mau negócio

Bruno Pereira recordou que os assaltos a bancos e a carrinhas de valores se tornaram raros porque as medidas de proteção elevaram o risco e reduziram a rentabilidade. Os criminosos não se tornaram melhores. O crime tornou-se pior negócio.

A verdadeira dureza contra o Gangue do Rolex não está em desejar uma polícia que “mate sem hesitação”, nem em substituir investigação por slogans. Está em cruzar rapidamente imagens e matrículas, reforçar equipas, atacar os circuitos de revenda e garantir cooperação internacional. Está em fazer com que o autor saiba que será identificado, detido, julgado e responsabilizado em tempo útil.

Um Estado brutal não é um Estado forte. É um Estado que perdeu os limites porque não conseguiu ganhar eficácia.

Também não é escandaloso que o condutor do BMW tenha sido constituído arguido. Esse estatuto não é uma condenação e assegura-lhe direitos de defesa. A justiça tem de apurar se houve fuga, perseguição, intenção, negligência ou uma sucessão trágica de segundos.

O perigo está em concentrar todo o debate na responsabilidade da vítima. O Estado explica por que razão a investiga depois e evita explicar por que razão não conseguiu protegê-la antes.

Na Avenida de Berlim, não ficou apenas uma mota no asfalto, um homem morto e um relógio por recuperar. Ficou exposta a distância entre a velocidade do crime e a velocidade do Estado. É nesse intervalo que o cidadão fica sozinho e faz escolhas que nunca deveria ter de fazer.

Que Estado queremos ter: um Estado em que a vítima acaba convencida de que está entregue a si própria, ou um Estado suficientemente rápido e eficaz para que ninguém tenha de escolher entre perder os seus bens, arriscar a própria vida ou fazer justiça pelas próprias mãos?

O Estado pode não chegar antes de todos os crimes. Tem, porém, de chegar antes de desaparecer a confiança.

O Estado chega verdadeiramente a tempo quando a vítima já não sente que tem de partir primeiro.

Leia também: Portugal não está preparado para a crise turística que se aproxima | Editorial de Henrique Dias Freire

Articles similaires

Politique

Les directeurs d'écoles applaudissent les mesures annoncées par Luís Montenegro

Luís Montenegro a annoncé, lors du discours de clôture de l'Université d'été du PSD, un nouveau régime d'autonomie pour les écoles, une mesure qui a été applaudie par les directeurs d'écoles. Le programme vise à donner plus d'autonomie aux écoles dans la gestion administrative et pédagogique, répondant à d'anciennes revendications du secteur éducatif.

RTP Notícias30/08/26 17:30
Politique

Le chef du PS accuse Montenegro de tenter de blanchir le chaos des examens nationaux (AVEC AUDIO)

Le chef du PS, José Luís Carneiro, a accusé le Premier ministre Luís Montenegro de blanchir « le chaos des examens » nationaux du secondaire et d'avoir « peur du peuple portugais », lors d'une visite à la Foire d'août à Grândola. Carneiro a critiqué Montenegro pour s'être substitué au ministre de l'Éducation afin d'« affirmer une réalité qui n'existe pas », soulignant que le pourcentage de candidats entrés dans l'enseignement supérieur a diminué par rapport aux années précédentes. Le leader socialiste a également estimé que le Premier ministre aurait dû remercier le PS pour le financement et les programmes de formation professionnelle laissés, qualifiant cette situation d'attitude de « coucou » qui profite du travail des autres. Interrogé sur la motion de censure du Chega, Carneiro n'a pas répondu directement, mais a rappelé que le PS attend des réponses du gouvernement sur l'éducation jusqu'en septembre, menaçant de lancer une commission d'enquête s'il n'obtient pas de réponses.

Rádio Campanário30/08/26 17:08
E vão 187 medalhas, 14 delas de ouro, para o bicampeão mundial Fernando Pimenta: o “melhor atleta português de sempre“
Politique

Et ce sont 187 médailles, dont 14 en or, pour le double champion du monde Fernando Pimenta : le « meilleur athlète portugais de tous les temps »

Fernando Pimenta, double champion du monde de kayak, a conquis deux nouvelles médailles d'or aux Championnats du monde de sports aquatiques, s'imposant sur les 5000 mètres et ajoutant ce titre à celui des 1000 mètres obtenu la veille. Avec cette performance, l'athlète portugais a atteint l'impressionnant total de 187 médailles aux Championnats du monde, dont 14 en or, consolidant son statut de considéré comme le meilleur athlète portugais de tous les temps, menant de bout en bout les deux épreuves pendant plus de 24 minutes de compétition.

SAPO Notícias30/08/26 17:07
Politique

Le pétrole du Venezuela sera utilisé pour reabonner la réserve stratégique américaine, selon Trump

Les États-Unis comptent utiliser le contrôle sur des milliards de barils de pétrole vénézuélien pour reabonner leur réserve stratégique d'urgence, a annoncé le président Donald Trump. Dans une publication sur le réseau social Truth Social, Trump a blâmé son prédécesseur Joe Biden pour l'épuisement des stocks et a déclaré que le « remplissage » des Réserves stratégiques nationales commencera bientôt, décrivant l'accord comme « un cadeau du Venezuela au peuple américain ». La réserve américaine, d'une capacité de plus de 700 millions de barils, ne stocke actuellement que 289,7 millions de barils, soit environ 40 % de sa capacité totale.

oglobo30/08/26 17:03