Les déchets valant plus de 800 milliards d'eurosPhoto de Rodrigo Pereira sur Pexels
Économie

Les déchets valant plus de 800 milliards d'euros

Jornal Económico29 août 2026 à 10:00

Une étude publiée dans la revue Nature estime que les déchets de panneaux photovoltaïques au niveau mondial pourraient atteindre entre 297 et 402 millions de tonnes d'ici 2060. Les chercheurs ont analysé le problème dans 32 régions du monde et ont testé 17 008 scénarios différents de recyclage. La conclusion est que ce qui sera un énorme flux de déchets pourrait constituer une gigantesque réserve de matières premières, incluant du silicium, de l'argent, du cuivre, de l'aluminium et du tellure. Les bénéfices économiques nets cumulés estimés varient entre 529,1 et 935,5 milliards de dollars, ce qui correspond approximativement à 454 et 804 milliards d'euros au taux de change actuel.

La géographie des déchets solaires va changer significativement dans les prochaines décennies. Entre 2020 et 2040, les régions à revenu élevé concentrent plus de la moitié de la production mondiale de déchets photovoltaïques, l'UE générant entre 5,8 et 5,9 millions de tonnes sur cette période. Après 2040, le centre de gravité se déplace vers les économies à revenu moyen, la Chine pouvant accumuler entre 112,8 et 160,5 millions de tonnes d'ici 2060, devenant de loin la plus grande source individuelle de déchets solaires.

Au Portugal, au premier semestre 2026, 3 356 tonnes de panneaux photovoltaïques ont été acheminées vers le recyclage, selon les données d'Électrão, une augmentation exceptionnelle par rapport aux 213 tonnes enregistrées sur la même période en 2025. Cette augmentation était liée au remplacement d'équipements endommagés par des phénomènes météorologiques extrêmes. Les chercheurs alertent sur le fait que la solution la plus efficace économiquement pourrait consister à transporter les panneaux usagés vers des régions dotées de technologies de recyclage plus avancées, mais cela soulève des questions de distribution des bénéfices, car les régions à faible revenu pourraient ne recevoir qu'une petite partie des gains économiques totaux.

Dans le scénario le plus favorable, le recyclage des déchets photovoltaïques pourrait éviter jusqu'à 3,32 milliards de tonnes d'émissions équivalentes de dioxyde de carbone d'ici 2060. Les chercheurs préconisent des politiques combinant des subventions décroissantes pour soutenir la création de l'industrie dans une phase initiale, réduisant progressivement les incitations à mesure que l'activité devient commercialement viable. Le défi est de commencer à construire cette économie circulaire avant que la montagne de déchets n'apparaisse dans toute sa dimension, car un réseau de collecte, de transport et de recyclage ne se construit pas du jour au lendemain.

A energia solar foi uma das grandes apostas da transição energética. Agora começa a surgir uma pergunta menos confortável: o que acontece aos milhões de painéis instalados quando deixam de produzir electricidade? A resposta poderá dar origem a uma das próximas grandes indústrias da economia circular. Um estudo publicado na revista Nature estima que, a nível mundial, os resíduos de painéis fotovoltaicos poderão atingir entre 297 e 402 milhões de toneladas até 2060.

Os investigadores analisaram o problema em 32 regiões do mundo e testaram 1708 cenários diferentes de reciclagem, considerando factores como as tecnologias disponíveis, os preços das matérias-primas, o comércio internacional e as políticas públicas de apoio à reciclagem.

A conclusão é particularmente interessante do ponto de vista económico: aquilo que será uma enorme corrente de resíduos poderá também constituir uma gigantesca reserva de matérias-primas.

Os painéis fotovoltaicos contêm materiais com valor comercial, como silício, prata, cobre, alumínio e telúrio. Alguns componentes podem ainda conter metais potencialmente perigosos, como chumbo e cádmio, o que torna especialmente importante garantir que os equipamentos são tratados correctamente quando chegam ao fim da vida útil.

Em vez de simplesmente acabar num aterro ou num circuito de resíduos inadequado, um painel usado pode tornar-se uma fonte de materiais que voltam à economia.

É nessa recuperação que está o potencial do negócio.

Dependendo do cenário analisado, os investigadores estimam benefícios económicos líquidos acumulados entre 529,1 e 935,5 mil milhões de dólares até 2060. Convertido à taxa de câmbio actual, o intervalo corresponde aproximadamente a 454 e 804 mil milhões de euros.

O valor não significa que exista hoje um mercado de 804 mil milhões de euros. Trata-se de uma estimativa dos benefícios económicos líquidos acumulados que poderão resultar das diferentes estratégias de reciclagem ao longo das próximas décadas. A dimensão efectiva dependerá da evolução dos preços dos materiais, das tecnologias utilizadas, dos custos de reciclagem e das políticas adoptadas pelos governos.

Ainda assim, a escala potencial é difícil de ignorar. Quanto mais valiosos forem materiais como a prata, o alumínio ou o silício, maior será o incentivo para recuperá-los. Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica deverá tornar os processos de reciclagem mais baratos e eficientes.

Os investigadores estimam que a reciclagem poderá tornar-se globalmente competitiva entre 2035 e 2040, à medida que os custos diminuem e o valor dos materiais recuperados aumenta.

A geografia deste novo negócio será, contudo, tão importante como a sua dimensão.

O estudo divide o mundo em 32 regiões e mostra que o mapa dos resíduos solares vai mudar significativamente nas próximas décadas. Entre 2020 e 2040, são sobretudo as regiões de rendimento elevado que concentram a produção de resíduos fotovoltaicos. Nesse período, estas regiões deverão representar mais de metade do total mundial.

A Europa está entre as primeiras regiões a enfrentar esta vaga. A UE deverá gerar entre 5,8 e 5,9 milhões de toneladas de resíduos fotovoltaicos entre 2020 e 2040, tornando-se a principal região contribuinte nesse período.

Depois de 2040, porém, o centro de gravidade desloca-se progressivamente para as economias de rendimento médio, à medida que a energia solar se expande nesses mercados.

A China passa então a assumir uma dimensão muito maior. Em 2060, poderá acumular entre 112,8 e 160,5 milhões de toneladas de resíduos fotovoltaicos, tornando-se de longe a maior fonte individual de resíduos solares.

Os Estados Unidos deverão situar-se entre 25,7 e 39 milhões de toneladas e a Índia entre 26,8 e 35,2 milhões. A UE-15 deverá acumular entre 30,9 e 39,7 milhões de toneladas.

Há, portanto, duas histórias diferentes. Primeiro, o problema aparece sobretudo nas economias que começaram mais cedo a instalar grandes quantidades de painéis. Depois, à medida que a energia solar se dissemina pelo mundo, a produção de resíduos passa a concentrar-se também nas grandes economias emergentes.

E em Portugal?

Portugal ainda não dispõe de uma projecção específica para 2060 comparável às estimativas apresentadas pelo estudo para as grandes regiões mundiais. Mas os resíduos fotovoltaicos já começam a aparecer em quantidades que mostram que esta não é apenas uma questão para o futuro.

No primeiro semestre de 2026, foram encaminhadas para reciclagem em Portugal 3.356 toneladas de painéis fotovoltaicos, segundo dados divulgados pelo Electrão. No mesmo período de 2025 tinham sido registadas 213 toneladas.

O aumento foi excepcional e esteve relacionado, em particular, com a substituição de equipamentos danificados por fenómenos meteorológicos extremos. Não pode, por isso, ser usado como uma previsão da quantidade de resíduos solares que Portugal produzirá nos próximos anos.

Mas revela uma tendência importante: à medida que a quantidade de equipamentos instalados aumenta, também cresce a necessidade de criar capacidade para os recolher, transportar e reciclar.

Portugal ainda não sabe quanto valerá o seu futuro lixo solar. Mas já começou a descobrir que ele existe — e que pode valer dinheiro. A questão é saber onde ficará esse dinheiro.

A solução mais eficiente em termos económicos poderá passar por transportar os painéis usados para regiões onde existem tecnologias de reciclagem mais avançadas e custos de tratamento mais baixos. Os investigadores concluem que a combinação de tecnologias adequadas a cada região com a possibilidade de recorrer a instalações de reciclagem noutros países poderá produzir os melhores resultados económicos e ambientais.

É uma solução que pode reduzir custos, mas que levanta uma questão de distribuição.

Se os países com mais tecnologia e infra-estruturas especializadas receberem os resíduos produzidos noutras regiões, poderão também ficar com uma parcela maior do valor criado pela sua reciclagem.

Os investigadores alertam para esse risco. As regiões de baixo rendimento poderão receber apenas uma pequena parcela dos ganhos económicos totais associados à reciclagem em 2060, mesmo num cenário em que as tecnologias se tornam mais amplamente disponíveis.

A transição energética poderá, assim, criar uma nova desigualdade: alguns países produzem os resíduos, outros ficam com a tecnologia para os transformar em matérias-primas valiosas.

É por isso que o estudo defende políticas que tenham em conta não apenas a eficiência económica, mas também a distribuição dos benefícios.

Uma das soluções analisadas passa por subsídios decrescentes. Em vez de financiar indefinidamente a reciclagem, os governos poderiam apoiar a criação da indústria numa fase inicial e reduzir gradualmente os incentivos à medida que a actividade se torna comercialmente viável.

Segundo os investigadores, este modelo poderia melhorar a distribuição dos benefícios entre regiões, exigindo apenas uma pequena fracção dos recursos necessários para manter subsídios permanentes.

Há ainda uma segunda dimensão económica: a redução da dependência de novas matérias-primas.

Recuperar prata, cobre, alumínio ou silício a partir de painéis usados significa reduzir, pelo menos em parte, a necessidade de extrair novos recursos. A reciclagem pode, por isso, transformar uma parte do problema dos resíduos numa fonte alternativa de matérias-primas para a própria indústria.

E há uma terceira conta, desta vez climática.

No cenário mais favorável analisado pelos investigadores, a reciclagem dos resíduos fotovoltaicos poderá evitar até 3,32 mil milhões de toneladas de emissões equivalentes de dióxido de carbono até 2060.

O desafio é começar a construir esta economia circular antes de a montanha de resíduos aparecer em toda a sua dimensão. Os painéis instalados hoje podem continuar a produzir electricidade durante décadas. Mas uma rede de recolha, transporte, tratamento e reciclagem não se constrói de um momento para o outro. São necessárias fábricas, tecnologia, investimento, regulamentação e modelos de negócio capazes de tornar economicamente viável a recuperação dos materiais.

Esperar que milhões de painéis cheguem simultaneamente ao fim da sua vida útil para começar a procurar soluções poderá significar perder uma oportunidade económica e criar, ao mesmo tempo, um problema ambiental.

A energia solar foi apresentada durante anos como uma das tecnologias que permitiriam produzir mais electricidade com menor impacto climático. A próxima etapa será garantir que os seus equipamentos também entram no ciclo da economia circular.

Porque a corrida solar pode estar a criar uma segunda corrida: a corrida ao seu próprio lixo. E, desta vez, o prémio pode estar escondido dentro dos painéis que hoje vemos espalhados pelos telhados e pelos grandes parques fotovoltaicos de todo o mundo.

Articles similaires

Canadá "rouba" académicos a Harvard e ao MIT com financiamento multimilionário
Économie

Le Canada "dérobe" des universitaires à Harvard et au MIT avec un financement multimillionnaire

Le gouvernement canadien investit plus de 300 millions d'euros pour attirer 64 universitaires, dont 48 proviennent des États-Unis, incluant des institutions prestigieuses comme Harvard et le MIT. Les domaines les plus recherchés sont la santé et l'intelligence artificielle, dans une stratégie qui pourrait représenter un effort du Canada pour attirer le talent universitaire américain.

Jornal de Negócios29/08/26 18:30
Économie

Vous percevez une pension ? Vous pouvez demander cette aide allant jusqu'à 670 euros même avant l'âge de la retraite

Les pensionnés d'invalidité au Portugal peuvent demander le Complément Solidaire pour Personnes Âgées (CSI), une aide qui peut atteindre 670 euros mensuels, même avant d'atteindre l'âge normal de la retraite (66 ans et neuf mois en 2026), à condition de ne pas percevoir la Prestation Sociale pour l'Inclusion et de remplir les conditions d'accès. La valeur de référence annuelle est de 8 040 euros, le CSI étant une prestation différentielle qui complète les revenus jusqu'à cette limite. Pour les personnes seules, le revenu brut annuel pris en compte ne peut dépasser 8 040 euros, tandis que pour les couples, la limite est de 14 070 euros. La demande peut être faite en ligne ou auprès des services de la Sécurité Sociale, le paiement étant dû à partir du mois suivant la présentation de toute la documentation nécessaire.

Postal do Algarve29/08/26 18:30
Économie

En pensant à la prochaine Coupe du monde, les investisseurs saoudiens vont se tourner vers les secteurs du « sport et de l'énergie » au Portugal

Une délégation d'hommes d'affaires saoudiens est au Portugal jusqu'à mardi et va commencer à analyser les opportunités dans les secteurs du sport et de l'énergie, après avoir déjà signé des accords avec des entreprises portugaises dans le domaine de l'innovation des soins de santé. L'intérêt pour ces secteurs est lié à la tenue de la Coupe du monde de football au Portugal en 2030, conjointement avec l'Espagne et le Maroc, et en Arabie saoudite en 2034. Le président du Conseil d'affaires Arabie saoudite-Portugal souligne que le processus d'investissement doit être simplifié pour que davantage d'investisseurs saoudiens se sentent attirés par le Portugal, et lance un appel aux entreprises portugaises pour qu'elles prennent davantage de risques sur le marché saoudien, qu'il considère comme « un grand marché ». Quatre entreprises portugaises des secteurs de la technologie et de la santé signeront des mémorandums d'accord avec des partenaires saoudiens au siège de la CIP.

Eco29/08/26 18:10
Économie

Le prix du diesel baisse et celui de l'essence augmente la semaine prochaine

Les prix du diesel vont baisser tandis que les prix de l'essence vont augmenter la semaine prochaine au Portugal. La mise à jour de la remise sur la Taxe sur les Produits Pétroliers pourrait encore modifier les valeurs prévues pour les carburants.

Diário de Leiria29/08/26 18:00