Les inondations catastrophiques du 26 août ont fait des centaines de morts au Népal et au Tibet, avec des centaines de personnes encore disparues. Alors que les équipes de secours cherchent des survivants, les scientifiques analysent des images satellite pour comprendre les causes de la tragédie. Les premières images étaient masquées par les nuages et les poussières, mais celles obtenues par la suite ont permis de comprendre que la roche sous-jacente au glacier du sommet du Langtang Lirung, près de la frontière avec le Tibet, s'est effondrée en entraînant une énorme masse de glace, ne s'agissant pas seulement d'un détachement glacial mais aussi d'une partie significative du versant de la montagne lui-même.
Les débris ont avancé dans la vallée steep et étroite, conservant leur force à mesure que la glace fondait, avec de l'eau et de la boue de plusieurs étages de hauteur traversant les localités. La rivière Trishuli a considérablement augmenté son débit et des images satellite capturées avant et après dans les zones de Kolpurtar, Betrawati et Syapru Besi montrent des villages dévastés et recouverts de débris, la rivière étant maintenant beaucoup plus large et de coloration brunâtre et noire. À Syapru Besi, une destination touristique populaire, les bâtiments ont été emportés par le courant.
Le géographe Alton Byers, de l'Université du Colorado à Boulder, a déclaré qu'il s'agissait de la plus grande crue glaciaire qu'il ait jamais observée, estimant qu'elle est liée au changement climatique. Le réchauffement climatique provoque le dégel des glaciers et du pergélisol, augmentant l'instabilité dans les zones de haute altitude et pouvant déclencher une succession d'événements en cascade.
Cependant, les chercheurs Kristen Cook et Dan Shugar ont précisé qu'il n'est pas encore possible d'établir un lien direct entre cet effondrement et le changement climatique. Bien que les versants puissent s'effondrer naturellement, Cook a observé que le dégel du pergélisol rend les pentes des montagnes plus instables, et qu'il n'est pas inattendu d'assister à davantage d'événements de ce type dans un climat en réchauffement.

Enquanto equipas de resgate procuram pessoas desaparecidas após as cheias catastróficas na fronteira entre o Nepal e a China, cientistas analisam imagens de satélite em busca de pistas sobre as causas da catástrofe e avaliam a dimensão da devastação.
As cheias de quarta-feira 26 de agosto causaram centenas de mortos no Nepal e no Tibete, enquanto centenas de pessoas continuam desaparecidas.
Citados pela agência de notícias Associated Press, os geomorfólogos Kristen Cook e Dan Shugar afirmaram que as primeiras imagens do Nepal estavam encobertas por nuvens e poeiras levantadas pelos detritos, permitindo apenas observar que parte de um glaciar se tinha desprendido do pico Langtang Lirung, perto da fronteira com o Tibete.
Em imagens mais nítidas, obtidas na quinta-feira, os investigadores conseguiram perceber que a rocha subjacente ao glaciar desabou, arrastando uma enorme massa de gelo e lançando rochas e gelo para o vale.
“Mostra toda a área e conseguimos ver que parece não ter sido apenas este glaciar a desabar, mas também uma parte muito maior da própria rocha da encosta da montanha”, afirmou Shugar, professor associado da Universidade de Calgary.
“Há este grande colapso rochoso que arrastou consigo parte do glaciar”, acrescentou.
Shugar afirmou ser doloroso observar, nas imagens, as áreas a jusante onde viviam populações e perceber como os detritos soterraram aldeias.
Depois de atingirem o fundo do vale, os detritos mantiveram a força ao longo do vale íngreme e estreito, à medida que o gelo derretia, explicou Cook, investigadora da Universidade Grenoble Alpes, em França.
Água e lama com vários andares de altura atravessaram localidades.
O rio Trishuli aumentou drasticamente de caudal durante as cheias.
Imagens de satélite captadas antes e depois nas zonas de Kolpurtar, Betrawati e Syapru Besi, no Nepal, mostram que o rio está agora muito mais largo e apresenta uma coloração castanha e negra, depois de ter galgado as margens em algumas zonas e ficado repleto de detritos noutras.
As localidades e aldeias devastadas ao longo das margens do rio encontram-se cobertas por detritos e lama e surgem nas imagens como extensas áreas castanhas. Na região de Betrawati, algumas casas continuam parcialmente visíveis.
As cheias derrubaram e arrastaram edifícios em Syapru Besi, um destino turístico popular onde começa um conhecido percurso pedestre em direção ao pico Langtang Lirung.
As imagens captadas antes e depois da catástrofe mostram também um afluente mais largo, porque a força da corrente foi suficiente para empurrar a água no sentido contrário ao fluxo normal.
As cheias “deixaram um cenário de devastação” cuja recuperação demorará muitos anos, afirmou Alton Byers, geógrafo especializado em regiões montanhosas da Universidade do Colorado em Boulder.
Byers, que viveu no Nepal e regressa todos os anos ao país para estudar riscos associados aos glaciares e trabalhar com as comunidades na preparação para este tipo de catástrofes, afirmou tratar-se, de longe, da maior cheia provocada por um glaciar que alguma vez observou.
O investigador, do Instituto de Investigação Ártica e Alpina daquela universidade, considerou que as cheias estarão relacionadas com as alterações climáticas.
O aquecimento do planeta está a provocar o degelo dos glaciares e do pergelissolo, aumentando a instabilidade e favorecendo o desprendimento de enormes quantidades de neve e gelo em zonas de grande altitude, explicou.
Este fenómeno pode desencadear uma sucessão de acontecimentos em cascata, disse Byers.
“Todos os indicadores apontam, para mim, para os impactos das tendências de aquecimento”, afirmou.
“O pergelissolo, que durante milénios ajudou a manter unidos a rocha, o gelo, o solo e os glaciares em zonas de grande altitude, está agora a enfraquecer e a tornar-se instável”, acrescentou.
Cook e Shugar ressalvaram que ainda não é possível estabelecer com certeza uma relação direta entre este colapso e as alterações climáticas.
As encostas podem desabar e os deslizamentos de terras ocorrem naturalmente, observou Cook, embora o degelo do pergelissolo esteja a tornar as vertentes das montanhas mais instáveis.
“Embora não possamos, nesta fase, relacionar diretamente este colapso com as alterações climáticas, não é inesperado assistir a mais acontecimentos deste tipo num clima em aquecimento”, afirmou.