
O Banco Central Europeu (BCE) deve voltar às subidas das taxas diretoras esta quinta-feira, 10 de setembro, face a uma inflação que não dá sinais de abrandamento perante a continuação do conflito em torno de Ormuz. Ainda assim, os analistas antecipam que este será apenas um incremento isolado, não vendo aqui o início de novo ciclo de aperto monetário – numa projeção que contraria a dos mercados, apostados em nova subida em dezembro.
Depois da subida em junho, que a presidente Christine Lagarde rejeitou tratar-se de um incremento ‘de segurança’, como estavam a descrever os mercados, o BCE prepara-se agora para voltar a subir juros pela segunda vez desde que arrancou o conflito desencadeado pelos EUA e Israel contra o Irão. O mercado já desconta por inteiro esta possibilidade, pelo que há pouca margem para qualquer surpresa.
A taxa de referência ficará assim em 2,5%, o que significa que permanece abaixo dos 3,3% de inflação registados em agosto, a leitura mais recente do Eurostat. Os analistas da Ebury consideram que este valor corresponde “ao limite superior da [intervalo da taxa] neutra” e, apesar de anteciparem a subida, argumentam que esta se tratará novamente de um seguro contra a incerteza vigente.
Não há sinais claros de efeitos de segunda ordem, que tipicamente são o que coloca os bancos centrais mais alerta na dinâmica de preços, e a tendência implícita da inflação abrandou, reduzindo a necessidade de mais aperto monetário. “Mas quanto mais tempo o conflito durar, maior o risco de a inflação alastrar e mais difícil se tornará a posição do BCE, pelo que suspeitamos que o Conselho se inclinará para uma subida”, esclarecem.
Também a Pantheon Macro vê como quase certo o salto dos juros esta semana, embora convergindo com a Ebury ao considerar que este deverá ser o último do ano – ao contrário dos mercados, que se inclinam para nova subida em dezembro. Aliás, o consenso entre analistas e economistas está cada vez mais em torno da ideia de que não haverá mais subidas de juros até ao final do ano.
“É fácil de ver porque se alteraram as expectativas do mercado: preços do petróleo permanecem altos, enquanto a subida no gás natural sugere que a fraca acumulação de reservas no arranque do ano está a prejudicar a Europa. Mais geralmente, o repricing agressivo dos títulos norte-americanos ajudou a subir as expectativas de juros na Europa”, explica a nota do think-tank britânico, discordando da visão dominante entre investidores.
No entanto, e além dos fatores macro, a comunicação do BCE nestas últimas semanas não deixa antever um novo ciclo de aperto. A Ebury destaca que “o economista–chefe Philip Lane apontou os 2,5% como o limite superior do intervalo para a taxa neutra, pelo que qualquer subida para lá deste valor será puramente restritiva”, algo que a autoridade monetária não quererá, sobretudo face à fragilidade da economia da moeda única.
A reunião de setembro terá ainda lugar a uma atualização das perspetivas macroeconómicas do BCE, que poderão dar algum sinal quanto ao rumo dos juros após esta semana – algo que Lagarde certamente não fará, reforçando novamente a postura dependente dos dados.
O economista Felix Feather, da Aberdeen, antecipa ser “provável que o BCE reveja as suas projeções de crescimento em alta porque o impacto económico do conflito no Irão tem sido menor do que antecipado nas previsões de junho”, mas não o suficiente para empurrar para os responsáveis por política monetária para mais subidas. Também a Pantheon acredita nesta atualização em alta, apontando a 1% de crescimento esperado para este ano.
Do lado da inflação, a Pantheon projeta que se mantenha o tom hawkish, mas as revisões em alta deverão ser só para o próximo ano, mantendo-se a expectativa de uma leitura de 3% no final de 2026.




